Com a devida vénia (para não sujar os sapatos com as palavras imbecis), transcrevo: “Poderia indignar-me. Mas é-me indiferente. Tanto me faz o que aconteça à Madeira. Se se afunda em dívidas, se conquista a independência, se declara Jardim rei Momo vitalício. Desde que não continue a estourar o dinheiro que faz falta às regiões mais pobres do país, a Madeira é um problema dos madeirenses.” Escreveu, ontem, Daniel Oliveira.
Não um qualquer Daniel Oliveira, frequentador da taberna Bocas, mas Daniel Oliveira, dirigente do Bloco de Esquerda. Sim, de um partido que regularmente vai a votos na Madeira. Espero que o partido o escolha para os próximos comícios eleitorais no Funchal ou em Machico: “Caros madeirenses, estou aqui para vos dizer com toda a sinceridade: quero que se lixem!”
A citação que fiz, no primeiro parágrafo, é longa, para não correr o risco de tirar do contexto uma frase infeliz. Daniel Oliveira escreveu aquilo, ontem, no ‘Expresso’, onde é colunista. Aquilo, mesmo – o leitor não está a tresler. Ele disse e repetiu que a Madeira lhe é “indiferente”. O quê, exactamente? “O que aconteça à Madeira.” Mas tudo? Sim: que “se afunde em dívidas”, isto é, Daniel Oliveira não se importa que a Madeira se torne um lugar miserável; que se torne “independente”, isto é, Daniel Oliveira não se importa que a Madeira deixe de ser Portugal; que faça de “Jardim rei Momo vitalício”, isto é, Daniel Oliveira não se importa que a Madeira tenha o que ele classifica de um presidente palhaço, e para sempre. Sem dúvida, Daniel Oliveira está-se nas tintas para a Madeira.
Repito, foi escrito no ‘Expresso’. Se tivesse sido dito no ‘Eixo do Mal’, programa da SIC onde ele também aparece, poderia ser má audição nossa: Daniel Oliveira quando fala tem o péssimo hábito de mastigar castanhas (onde raio é que ele as encontra todo o ano?). Mas não, foi escrito e repetido. E é dele, está lá a marca do que ele gasta: Daniel Oliveira é contra a Madeira para defender “as regiões mais pobres do país”. Um dirigente do Bloco de Esquerda está sempre a pensar nos mais pobres. Depois, ele que foi tardio membro do PCP, glorificador da URSS, rematou com uma tirada à José Estaline, o do socialismo num só país e os outros que se lixem: “A Madeira é um problema dos madeirenses.” Já a Palestina, não. Essa é um problema de todos nós. Aí, já é bom que a União Europeia pague umas viagenzitas a assessores de partidozitos para que todos saibamos uns dos outros. Logo que os outros não sejam os nababos madeirenses.
Pois a mim, sem nunca ter ido à Madeira sem ser pelo meu dinheiro, dos meus patrões de jornais ou dos meus editores (isto é, sem nunca lá ter ido à custa de dinheiros públicos, portugueses ou europeus – como outros vão ao Médio Oriente – isto é, sem me servir do que Daniel Oliveira acusa Jardim, de gastar do “nosso” dinheiro), a mim não me é indiferente a Madeira. Quero-a sem dívidas, portuguesa e politicamente feliz.
Digo-o com todo o egoísmo possível: porque ter a Madeira é ter uma coisa boa. Era o que faltava, deixar de poder dizer que sou do mesmo país de Max e Herberto Helder.
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