Recentemente surgiu um livro no Brasil, de autoria do professor, sociólogo e politólogo brasileiro Vamireh Chacon, conterrâneo de Gilberto Freyre, com interessantes análises sobre ‘O Futuro Político da Lusofonia’. É um tema tratado como novo – embora suas raízes tenham sido deitadas há vários séculos – e as suas projecções são voltadas ao futuro.
Em 1940, no início das vitórias do nazifascismo na II Guerra Mundial, Gilberto Freyre pronunciou no Recife uma famosa conferência que tinha por tema "uma cultura ameaçada": a luso-brasileira, tendo em vista a infiltração hitleriana entre imigrantes alemães e seus descendentes concentrados no Sul do Brasil. O foco germanófilo visava potencialmente à exclusão da cultura luso-brasileira.
Gilberto Freyre punha o dedo na ferida numa época em que fortes simpatias no seio do Governo de Getúlio Vargas faziam este pender para certa crença em favor das potências que compunham o chamado Eixo Berlim - Roma - Tóquio. Os tempos mudaram e anos depois os aliados triunfavam sobre o nazifascismo; passou o perigo da implantação da cultura germânica no Sul do Brasil contra a cultura luso-brasileira de seculares tradições. Mas era, então, imprevisível que na viragem do século outro marco histórico de crescente importância e avassaladora influência viesse, como escreve Vamireh Chacon, trazer "ameaças de desculturação, de selectivas a massificadas, de parte da cultura anglófona, vitoriosa na II Guerra Mundial".
Os riscos e perigos de origem cultural haviam sido claramente definidos e apontados, em 1940, por Gilberto Freyre, como vem transcrito no livro de Chacon: "Há perigos reais. Não perigos de nações contra nações – estes são transitórios; nem de Estado contra Estado, estes são ainda mais superficiais; e sim, os perigos de culturas contra culturas; sim, as ameaças de imposição da parte de grupos tecnicamente mais fortes a grupos tecnicamente ainda fracos de valores, de cultura e de formas de organização social, dentro das quais os povos menores se achatariam como vassalos dos vencedores, ou por serem mestiços, ou por serem considerados corruptos, ou por isto, ou por aquilo".
Considera, por isso, Vamireh Chacon que, diante da penetração do francês na Guiné-Bissau, do inglês em Moçambique (em Goa, Damão e Diu a ameaça anglófona da Índia está consumada), e mesmo do bahasa indonésio, em Timor-Leste, cumpre reagir em defesa da lusofonia com seus valores, recordando palavras gilbertianas de 1940: "Resguardá-la de imperialismos de qualquer espécie, mesmo o apenas doutrinário; resguardá-la de qualquer intromissão imperialista no íntimo de sua vida e no essencial de sua cultura".
Noutro aspecto, Gilberto Freyre não considerou que a democracia racial estivesse pronta e acabada no quadro da lusofonia, mas que Portugal e Brasil dela estavam então mais próximos do que outras culturas ou civilizações contemporâneas. Compare-se – assinala Chacon – Brasil e Portugal, nesta viragem do século XX ao XXI, com a Bósnia, aChechénia, o Kosovo ou o Ruanda-Burundi. Compare-se ainda Portugal e o Brasil com as relações internas inter-étnicas nos EUA e em países europeus com pretensão de ditar normas a respeito. E cito: " Ninguém é perfeito, nisto somos menos imperfeitos, motivo não de comemoração imobilista e sim de incentivo, mesmo de desafio, a corrigirmo-nos mais e melhor à frente de quem nos quer diminuir no contexto do conflito cultural.”
Aqui – digo eu – entra-se no domínio da prática ou doutrina da glotopolítica, ou a política das línguas, conceito que enunciei em 1997, em Lisboa e em Moscovo. É evidente que o perigo para a cultura de um povo – e o primeiro elemento da cultura é a língua – é... outra cultura, mais forte. Se a expressão desse risco é cultural quanto ao instrumento, isto é, a língua, na base pode estar inserido factor de outra natureza, seja económica, política, ou outra. Factor que contribui para a demanda também de outra cultura, de outra língua. É o caso de Moçambique, no seu relacionamento com a África do Sul, que gera uma demanda cultural, que é aprender inglês, o que é de suma importância porque facilita a obtenção de emprego com maior renumeração.
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