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Refere a sua explosão como elemento fundamental da banda sonora do filme 'Donnie Darko', filme de culto realizado por Richard Kelly e com Jake Gyllenhaal no papel do esquizofrénico protagonista. Percebe-se porquê, em três tempos: primeiro, pelo revivalismo que traz de volta uma canção com mais de duas décadas de existência, mas que não perdeu sentido nem sentimento - 'Mad World', o single que ajudou a lançar a carreira dos Tears For Fears; segundo, pelo contraste contracorrente que representa o 'casamento' singelo de piano e voz, muito distante das tendências dominantes, mais cru e pungente até que a versão original; terceiro, pela expressividade inequívoca da voz de Mr. Jules, o tal rapaz que aparece associado a uma onda musical sediada no Hotel Cafe de Los Angeles, por onde terão passado os Weezer, músicos dos Gomez, Damien Rice, Jewel e Pete Yorn. Confusos? Também eu, que confesso não perceber que pontos de identidade tão esclarecedores se vislumbram entre esta seita, mas enfim…

Mais interessante seria descobrir que este excelentíssimo 'Trading Snakeoil For Wolf Tickets' (ed. Som Livre) até já nem é a primeira aventura de Gary, anteriormente contratado pela etiqueta A & M, onde lançou 'Greetings From The Side', infelizmente retirado de 'stock' na Europa mas que se consegue nalgumas 'net shops' norte-americanas. Vivamos com aquilo que está acessível, ou seja com esta segunda investida: o que apetece dizer é que este autor, cantor e instrumentista (o CD atribui-lhe guitarras, bandolim e harmónica), escolheu uma via absolutamente invulgar para os dias que correm, com primado da palavra e das melodias fluentes e imediatamente apelativas. Convém, no entanto, não confundir simplicidade com simplismo: se Gary Jules poderia, à primeira audição, passar por um 'trovador de esquina', o mínimo que se torna obrigatório acrescentar está no facto de ter escolhido a esquina certa.

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Como cada vez menos se está preparado para este 'radicalismo', as comparações e atribuições de influências também se multiplicam: de Cat Stevens a Paul Simon, dos Byrds a JJ Cale, de James Taylor a Ben Harper, muitos são os 'convocados' para lhe tirar a pinta. Por mim, mais depressa apontaria essoutro talento por descobrir que é Joseph Arthur, mas adiante… A verdade é que, sem artefactos, com total transparência, Gary Jules traça, ele próprio, notáveis retratos do especialíssimo 'american way' de L.A. e de Hollywood. São canções que chegam a doer, na sua 'naiveté', no seu absoluto despojamento. Conclusão: embora a versão de 'Mad World' consiga mesmo um estranho magnetismo, suficiente para os ingleses terem feito dela o single mais vendido na semana do Natal, o álbum supera todas as expectativas. E, em mais uma dúzia de canções, todas assinadas por Jules, revelam um homem que não se deixou contagiar pelos ambientes pesados e artificiais. Pelo contrário, há uma teimosa procura – e uma feliz descoberta – da essência da canção 'pop'. Ou ' folk'. Ou o que muito bem entenderem. Importa, isso sim, que é música de primeira água. Para ir começando bem o ano, chega e sobra.

O alinhamento não é igual, as canções são em menor número, mas a alma, o encanto, a 'sabida' ingenuidade estão aqui todas. Para os que quiserem recordar os sublimes - e reconfortantes: não nos enganámos - concertos portugueses de MARIA RITA (ed. Warner), fica a recomendação incondicional do DVD que, outra vez, só 'leva' o nome da filha de Elis. Atenção às entrevistas, não se perca o 'making of'. Mas o que fica, depois de terminado, são mesmo olhar e voz de uma mulher que vai crescer. E como… n Onda Brasil, parte dois: leve, levezinho, outra vez bem disposto ou sarcástico, entre o condimento dançante e o tempero 'rockeiro', o 'reggae' e a raiz. De volta a uma deliciosa 'geleia', a que nem faltam uma colaboração do selecto Arnaldo Jabor e uma canção dos 'tribalistas' Marisa, Brown e Arnaldo Antunes, está Dona RITA LEE. O álbum chama-se 'Balacobaco' (ed. Som Livre) e serve como antídoto contra os enjoos e as depressões. E 'Amor e Sexo' só pode mesmo caminhar rumo ao êxito. Inevitável.

’Mea culpa', primeiro andamento: ainda não acabei a autoflagelação por ter deixado escapar, em cima da hora, o álbum de estreia a solo de MARTINA TOPLEY-BIRD, anteriormente conhecida como a grande musa de Tricky. Se o conselho peca por tardio, não fica esmorecido no entusiasmo: 'Quixotic' (ed. Sony Music) é poderoso, sensual, arrebatador, violento, variado e… coerente a um nível invulgar para a produção de 2003. Não tem ponta de arrogância, de truque fácil. É mesmo só luxo e deslumbramento. n 'Mea culpa', segundo compasso (com a agravante de ser uma falha nacional): entre a dúzia de melhores registos portugueses do ano passado, é da mais inteira justiça que se inclua, mesmo com efeitos retroactivos o primeiro CD dos MESA, registo homónimo (ed. Zona Música). Se a elegância, as fintas à sobrecarga de meios, a eficácia múltipla dos textos, o bom gosto dos arranjos e alguma excelência instrumental não bastassem, haveria sempre a voz de Mónica Ferraz. Ainda vão (vamos) muito a tempo.

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