Felizmente para nós, o seu espírito, a abordagem que já demonstrou ser capaz de fazer à gestão de carreira é bastante mais jovem do que isso. A mais recente prova acaba de ser lançada em Portugal e, perdoe-se o atrevimento, é uma das mais deliciosas aventuras de um "estrangeiro" no espírito, na toada e nas "doces manias" da música brasileira - chama-se "Obrigado Brazil" (ed. Sony Classics) e, desde o primeiro instante, revela o que se ganha quando um instrumentista de génio recusa a clausura estética e decide abraçar "sempre novas qualidades".
Uma das bases do resultado contagiante deste disco - que poderão, sem esforço, arrumar por perto de outras deliciosas incursões como "Bach In Brazil", pela Orquestra de Câmara do Brasil, ou "Brazilian Rhapsody", de Daniel Barenboim - está na escolha dos parceiros para este filho de chineses nascido em Paris há quase 48 anos. Logo na abertura está o pianista, compositor e arranjador César Camargo Mariano, um dos parceiros (e maridos…) de Elis Regina. Depois, “é luxo só”: a sublime voz de Rosa Passos, desconhecida por cá mas cada vez mais a herdeira da Bossa Nova de Nara Leão; os pianos de Kathryn Stott e Hélio Alves; as guitarras de Sérgio e Odair Bassad, os irmãos de Badi Assad, mas sobretudo a do mestre Oscar Castro-Neves; o clarinete do "intruso" cubano Paquito d'Rivera; o piano, a guitarra e a flauta de Egberto Gismonti.
Depois, está a "pontaria afinada" do repertório, eclético e solto, mas sem deslizes de nível: de Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim e Gismonti a Pixinguinha e Jacob do Bandolim, ressalta a vontade de Yo-Yo Ma percorrer, com a calma que cada capítulo exige para se ganhar o sabor que o distingue, todas as cores do infinito "arco-íris" que é esse imenso Brasil musical.
Enfim, a vitória absoluta deste registo está nas combinações dos diferentes naipes instrumentais e na forma "solidária" como um "peso pesado" como o violoncelista tantas vezes dispensa os focos, criando espaços de respiração e aberturas para que todos ganhem os seus momentos de glória, mas sem nunca por nunca se resvalar para o exibicionismo puro e simples. Devo confessar que, mesmo quem já ouviu Jobim em quase todos os formatos possíveis, não consegue evitar o arrepio diante de "Chega de Saudade" ou "O Amor Em Paz", monumentos que se recusam a ficar empedernidos e que mostram ainda lugar para novos fôlegos com a ajuda preciosa, lenta e inquieta do violoncelo. E que tal o regresso a "Carinhoso", esse eterno desabafo de Pixinguinha, com "cello" e clarinete em diálogo improvável? Mais "respeitadoras" são as leituras de Villa-Lobos, mais desconcertantes as que se produzem em torno dos dois temas de Gismonti aqui representados.
Para quem se entusiasmou com o encontro de Ma com o cantor Bobby McFerrin (em "Hush") e com o trabalho do violoncelista em torno dos "arranques" apaixonados e deslizantes de Astor Piazzolla (em "Piazzolla: Soul Of The Tango"), este é um novo episódio de excelência prazenteira, propositadamente "descomplicado" e acessível. Ah, é verdade: obrigadinho somos mesmo nós.
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