Aquilo que vemos todos os dias cada vez mais nos determina a um salutar fundamentalismo democrático. A um regresso urgente à pureza dos conceitos que, abusados, acabam por ser matriz e origem, também, de todas as “ideologias intermédias” pseudo democráticas. Regressar à ideia central do bem comum como causa (objectivo) final.
A democracia só se salvará com cada vez mais democracia e não serão os finalistas, os que têm cultura partidária, mas não têm verdadeira cultura política, os que sacrificam o fundamental ao acessório e aos objectivos imediatistas, próprios ou alheios, mas sempre discutíveis, que lhe não acrescentarão nada, a não ser desencanto. Os verdadeiros herdeiros de Cavaco que, apesar de tão incensado, nunca nos deu um único sinal de uma cultura política sólida, ou tão só minimamente erudita.
A discussão dos últimos dias à volta das virtudes e dos pecados do défice que o governo reclama como uma grande vitória é o melhor exemplo. É cansativa e já não faz qualquer sentido. Não por causa de as exéquias do PEC já terem sido celebradas há muito tempo, mas, sobretudo, porque a discussão é apenas voluntarista, assenta numa feroz luta partidária reduzida ao que de pior tem o sistema e sem nunca se preocupar com quaisquer outros objectivos que nos abranjam.
Os servis porta vozes, oficiais e oficiosos, do governo parecem ainda convencidos de que uma mentira repetida milhares de vezes se torna verdade. E ao atacar os que pedem apenas um mínimo de decoro e alguma lucidez e chamam a atenção para realidade nua e crua da nossa situação esquecem a campanha miserável que todos eles desencadearam, num claro exercício de autodefesa, para ampliar o défice deixado por Guterres, sem ponderar minimamente as consequências externas dessa sua leviandade.
São os fundamentalistas do vale tudo para resistir e não ir ao tapete.
O défice nunca significará nada enquanto for conseguido à custa de truques e da alienação de activos do Estado. Que já estão a chegar ao fim.
As finanças públicas continuam desequilibradas. O governo claramente não sabe como as reequilibrar e, acima de tudo, com esta política nunca haverá retoma neste país se não for a reboque das economias que dominam a cena mundial e que dependemos.
O nosso comboio da retoma pifou. Ou apanhamos outro que nos passe à porta e nos arraste ou continuaremos no buraco por muitos e maus anos.
O desplante com que supostos analistas falam de pífios sinais de retoma são só outro dos sinais de continuamos a ser politicamente abusados.
Até quando?
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt