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Natal na Calábria, 2006. A vila de San Luca, ali no sopé do Aspromonte, dormitava, como que a reflectir sobre o dia.

Maria Strangio, de 33 anos, farto cabelo negro e porte jovial, passeava, à porta de casa, com o cunhado e o sobrinho pequeno. Chegaram duas motos e o grupo foi alvejado com tiros de Kalashnikov, pistola, espingarda calibre 12. Strangio morreu imediatamente. Sobre o seu pólo branco, tingido de sangue, jurou-se vingança.

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Maria era a mulher de Giovanni Nirta, alegado cabecilha de um dos clãs da Ndrangheta, ‘Sociedade da Honra’, a máfia calabresa.

Organizada, primeiro ‘horizontalmente’, em famílias, depois ‘verticalmente’, com ‘comissões provinciais’ e regionais, a ‘fraternidade’ criou o ‘Zainu’, chefe dos chefes, que zela pela paz interna, nem sempre com sucesso, como se vê. E expandiu-se internacionalmente para todo o Mundo. Trafica, contrabandeia, falsifica, lava dinheiro. É um império financeiro, e muitos olham San Luca como um dos centros ‘espirituais’.

A terra, governada por Giuseppe Mammolli (dos Democratas de Esquerda) tem quatro mil habitantes, mas só 270 trabalhadores registados.

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Foi aqui que tudo começou, em 1991, como nos filmes, com as famílias Nirta-Strangio e Pelle Romeo disputando o melhor fogo-de-artifício.

POLVO (II)

Do atirar de ovos podres e insultos passou-se, nos tempos seguintes, às mortes, que culminaram neste dia da Assunção, em Duisburgo.

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A pacata e bisonha cidade alemã horrorizou-se. Na estação local, ao lado de uma pizaria popular, seis ‘executados’, de 16 a 38 anos. Um era Marco Marmo, suspeito de ligação aos carrascos de Maria Strangio.

Em San Luca, um bispo pede às mulheres que convençam pais, maridos e filhos ao calar da raiva, aos bons costumes, ao perdão. Lembro-me da peça de Aristófanes, ‘Lisístrata’, com a greve conjugal contra a guerra.

A igreja local tem uma palavra a dizer, porque há, em tudo isto, uma paródia demoníaca da religião.

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É que muitos membros da Ndrangheta frequentam o santuário de Nossa Senhora de Polsi e consideram-se a si mesmos ‘apóstolos’, ‘evangelizadores’, ‘arcanjos’. Os massacres são escolhidos para dias santos, há orações hipócritas, encomendando as almas de inocentes e um falso ‘código de ética’.

POLVO (III)

Lembro-me de um encontro discreto, na sede da Polícia Montada, em 1998, em Ottawa. Um investigador mostrou-me fotografias de ‘empresários’, numa metrópole canadiana. Ia dizendo: ‘Ndrangheta’, ‘Nuova Famiglia’, ‘Sacra Colona Unita’, ‘Camorra’, ‘PM’, etc.

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Explicou, com ar grave, que as ‘corporações’ estavam a investir no tráfico de armas e droga, na construção civil, no turismo e no jogo. Candidatavam-se a concursos públicos de infra-estruturas, em vários sítios do Mundo, e olhavam para o Leste da Europa como uma mina.

Os morticínios de San Luca e Duisburgo são só o topo do icebergue. Outro sinal é a droga apreendida, todos os dias, por toda a parte. E a compra de consciências.

Eis a guerra do presente. Invisível, mas real.

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