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Um tribunal só condena alguém quando está certíssimo de que um crime foi cometido, de que todas as provas foram correctamente recolhidas, de que todos os direitos do acusado foram assegurados. ‘In dubio pro reo’, mandam os tribunais dos Estados de direito, e mandam muito bem. Só que há inocentes e inocentes. Há inocentes que são absolvidos porque houve um engano enorme ou uma manifesta injustiça, e há inocentes que escapam por erros processuais ou porque as provas, sendo abundantes, não eram suficientemente seguras.

Quer isto dizer que da presunção da inocência à virgem imaculada vai um passo de gigante, e convém ter algum cuidado quando se alça a perna. Ora, é esse cuidado que Pinto da Costa não tem tido, e que sobretudo não teve no já famoso discurso de homenagem a José Maria Pedroto. Puxando os galões da moral, da absolvição em toda a linha na Justiça e atirando uma série de farpas à 'verdade desportiva', o presidente do Futebol Clube do Porto pôs-se a jeito. Não se pode simultaneamente pregar os mais elevados valores e receber telefonemas de um presidente do Conselho de Arbitragem a saber se acha bem a escolha do árbitro A ou do árbitro B.

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Com certeza que não é mera coincidência que as escutas do processo ‘Apito Dourado’ tenham ido parar à internet nesta altura. Pode discutir-se a legalidade dessa divulgação e o seu interesse público, já que nada daquilo é realmente novo. Só que a hipocrisia custa a digerir e é o pasto ideal para alimentar todos os demónios. Pinto da Costa foi absolvido? Foi. Mas gritá-lo em cima de um palanque não é a melhor opção.

ENTREVISTAS IMAGINÁRIAS

'A MOEDA ERA MÁ MAS ESTA MEDALHA É MUITO BOA': Pedro Santana Lopes, ex-primeiro-ministro

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– Parabéns pela atribuição da Grã-Cruz da Ordem de Cristo.

– Muito obrigado.

– Posso vê-la?

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– Com certeza. Finalmente vou ter um adereço para fazer concorrência ao lenço de pirata com que me apanharam naquele cruzeiro. Lembra-se?

– Então não lembro. Mas não acha um pouco esquisito que quem lhe chamou má moeda…

– Ouça, a moeda podia ser má, mas olha que esta medalha é mesmo boa. Já lhe dei uma trinca e garanto-lhe que o material é nobre.

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– Acredito. Mas não acha mesmo assim que receber das mãos de Cavaco uma condecoração pelo seu desempenho como primeiro-ministro é… ridículo?

– Nada disso. Antes da história da má moeda o professor Cavaco era o homem que não sabia o número de cantos dos ‘Lusíadas’ e que confundia Tomás Moro e Thomas Mann. De repente, passou a ser um homem capaz de criar metáforas que ficavam na memória de todos e a influenciar com um artigo de jornal o destino do País. A quem é que acha que ele deve esse upgrade intelectual?

– A si?

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– Nem mais.

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