Nos últimos dias evitei escrever sobre a guerra no Irão. No início do conflito parecia-me, e aqui registei, que as coisas não estavam com boa cara, mas a insistência nos sinais de preocupação é, muitas vezes, mero exercício inútil de pessimismo. Nos casos mais sérios é preciso deixar passar o tempo para percebermos se os piores cenários se confirmam, ou se, pelo contrário, a vida retoma o mecanismo da normalidade.
Com a passagem dos dias, convém perdermos as ilusões. Os Estados Unidos entraram num conflito muito complexo sem estratégia nem objetivos. Israel enreda-se num desfiladeiro de loucura. Os ataques foram desenvolvidos de tal forma que o mais natural é que o orgulho do povo persa se consolide em redor dos despojos da nação. As notícias do massacre de mais de uma centena de raparigas numa escola, notícias essas que pareciam, a princípio, mera propaganda, ganham consistência em resultado de investigações jornalísticas.
Um ato de consequências tão atrozes provoca necessariamente dor, revolta e ressentimento. O caos no mercado de petróleo ameaça atirar-nos para uma crise de proporções que preferimos neste momento não imaginar. Trump encontrou no imponderado ataque ao Irão o seu vespeiro. A ilusão autossustentada da sua inimputabilidade política pode morrer nos efeitos internos dos ataques aéreos a Teerão. As coisas não estão com bom ar. À cautela, preparemo-nos, de forma ponderada, mas sem hesitações, para o pior.
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