Dora, a Espectadora

O eclipse

21 de agosto de 2026 às 00:30
Partilhar

Eis que chegou o tipo de evento que faz as delícias das gentes dos nossos tempos e, por maioria de razão, das televisões generalistas: é fugaz, não exige leituras nem estudos, não implica qualquer esforço e alimenta conversas em que todos se fazem passar por especialistas. Dura menos de dois minutos, passa na televisão, e no dia seguinte meio país explica com desenvoltura a mecânica orbital que na véspera ignorava.

Convém, ainda assim, registar uma particularidade deste acontecimento em concreto. O eclipse de quarta-feira, 12 de agosto, estava ‘marcado’ há décadas. A hora era conhecida ao minuto, a ocultação estava calculada por região, a faixa de totalidade tocou o continente num único ponto e durou cerca de vinte segundos.

Pub

Não havia, portanto, elemento-surpresa. Não houve o incêndio que rebenta às quatro da tarde, o acidente que obriga a refazer o alinhamento, o telefonema do ministro a meio do ‘Telejornal’. Havia um acontecimento com data, hora, coordenadas e duração, disponível em qualquer efeméride astronómica desde antes de qualquer um dos jornalistas envolvidos ter nascido. As três generalistas tiveram décadas para preparar vinte segundos. E a RTP, claro, conseguiu não estar pronta. Esta é a imagem de um João Adelino Faria ainda mais atarantado do que o costume porque abriu o ‘Telejornal’, o eclipse já tinha passado do máximo e a equipa não estava pronta para o direto. Esta perfeita alegoria do que é hoje a estação pública permite que não nos detenhamos mais tempo por aqui e que partamos, sem mais demoras, à descoberta de como foi a abertura do ‘Jornal da Noite’, da SIC.

Palavras para quê? Rodrigo Guedes de Carvalho, o mesmo que no dia do ‘apagão’ tinha começado um ‘Jornal da Noite’ às escuras e só com a luz da lanterna do telemóvel, achou que ia ter graça, desta vez, abrir o jornal de óculos escuros. Há ali uma qualquer obsessão com o escuro e uma vertigem para comédia de segunda categoria.

É curioso que quem tenha memória se pode recordar dos tempos da pandemia e de um jornal em que o mesmo Rodrigo falava da cadeira de quem apresenta os jornais televisivos como a ‘cadeira de Cronkite’. Para quem possa estar menos familiarizado, a expressão simboliza a autoridade máxima, a credibilidade e o papel central de um pivô de jornal televisivo. Walter Cronkite apresentou jornais da CBS durante quase vinte anos e chegou a ser considerado o “homem mais confiável da América”. A cadeira que ele ocupava tornou-se um símbolo de seriedade e sobriedade profissional na televisão. Ora, eu vejo o mesmo Rodrigo, todo gaiteiro, a fazer graçolas com óculos escuros na abertura do jornal, e fico com a ideia de que, nos idos de 2020, a menção não seria a Cronkite mas a Croquete, da dupla Croquete & Batatinha. E essa cadeira não vejo inconveniente a que a reclame.

Pub

E chegámos à TVI, que resolveu o problema de outra maneira: em vez de cobrir o eclipse, arranjou-lhe uma protagonista. Colocou a Idália (quem mais poderia ser??) no topo do edifício da estação, em Queluz, em contraluz, o rodapé a garantir que Portugal estava de olhos postos no céu, e de lá a enviada especial ao firmamento explicou à nação um conceito a que mais ninguém teve acesso. Na realidade até estranhei que não se tivesse feito um ‘Exclusivo’ sobre o assunto. É que a ‘Virtuosa’ apresentou aos portugueses “o vento do eclipse”. Contado ninguém acredita: Idália sentiu umas rajadas e decidiu que aquilo era “o vento do eclipse”. De facto tem tudo a ver com aquilo a que nos habituou no ‘Exclusivo’: interpretações ‘ad hoc’ sobre circunstâncias que muitas vezes nem estão inter-relacionadas. Não é que a ciência não documente um fenómeno com algumas semelhanças, mas o efeito é subtil, na ordem de fração de metro por segundo...

Há décadas que se procura vida inteligente noutros planetas. Radiotelescópios apontados ao escuro, sondas com placas gravadas, sequências de números emitidas na esperança de que alguém responda. Nada. E toma-se esse silêncio por ausência, o que me parece um erro de leitura. O silêncio não é ausência. O silêncio é a resposta. Na noite de 12 de agosto, as três estações de televisão generalistas de um país europeu, com serviço público, redações, orçamentos e décadas de aviso, transmitiram em direto o alinhamento do Sol, da Lua e da Terra. Uma não estava pronta. Outra pôs óculos escuros dentro de casa. A terceira subiu a um telhado para falar do vento.

Involuntariamente, estes três demonstraram que existe vida inteligente noutros planetas e a prova disso é que ‘eles’ veem isto e não nos procuram: são inteligentes.

Pub
1 / 3
FOTO: Direitos Reservados
O eclipse
FOTO: Direitos Reservados
O eclipse
FOTO: Direitos Reservados
O eclipse

Liga Idália

A competição teve na semana passada dois concorrentes e os dois dividiram o dia entre si. Nos dez jornais emitidos pelas generalistas nos dias úteis, a RTP e a TVI ficaram com cinco últimos lugares cada uma: a RTP foi a menos vista em quatro dos cinco almoços, a TVI em quatro das cinco noites. Uma ficou com o turno do meio-dia, a outra com o da noite. O ‘Jornal Nacional’, com Idália ao leme, foi o menos visto de todos em quatro das cinco emissões, mas com uma novidade: agora já consegue ter menos espectadores do que o ‘TVI Jornal’ da hora do almoço. Haverá quem não perceba o que é evidente?

Pub

Por uma décima...

Está encontrado o formato capaz da proeza de quase conseguir perder contra o ‘Estamos em casa’, da SIC. Trata-se do espetacular ‘7 Novas Maravilhas de Portugal’ que, no sábado passado, ficou apenas uma décima à frente do passatempo dos sábados de Andreia Rodrigues. Desde a sua estreia, há apenas dois meses, o ‘Maravilhas’ já perdeu 25% da audiência. Um sucesso, portanto!

1 / 1
FOTO: Direitos Reservados
Sandra Felgueiras
Pub

Eventos cósmicos

“Não nos eclipsamos. O sol fugiu mas voltou num instantinho. Como sempre”, escreveu a Idália. Numa noite em que o Sol se apagou sobre milhões de pessoas, ela arranjou maneira de fazer uma frase cujo sujeito é “nós”. São as escolhas que já não nos surpreendem. Como também não nos surpreende que ela tenha confundido o que acabara de ver, um eclipse, com o que trouxe para a fotografia: um ocaso.

1 / 3
FOTO: Direitos Reservados
RTP
FOTO: Direitos Reservados
RTP
FOTO: Direitos Reservados
RTP
Pub

O laranja está na moda I

O que se passa com a iluminação dos estúdios da informação da RTP? Não interessa a cor do cabelo com que entram: à hora do telejornal saem todos no mesmo tom de laranja torrado, algures entre o tijolo e o autobronzeador aplicado às pressas. E fica a dúvida: dos tais subsídios extras que a IGF andou a contar, haveria algum para tintas de cabelo?

O laranja está na moda II

Pub

Tudo acontece à TVI. Então não é que na sexta-feira passada um ‘Direito de Antena’ do PSD, emitido pela RTP, arrasou as audiências da TVI? Durante os seus cinco minutos de duração, a RTP1 até desceu de 672 000 espectadores para 485 mil. Perdeu 187 mil espectadores e mesmo no minuto pior, ainda tinha mais 117 mil pessoas do que a TVI tinha no mesmo minuto. Ou seja: as pessoas fugiram da RTP durante cinco minutos e ainda assim ficaram em maior número do que as que a TVI conseguiu juntar. Tudo isto por causa do ‘Direito de Antena’ de um partido que cunhou o slogan “hoje somos muitos, amanhã seremos milhões” e que hoje se pode aplicar, ao contrário, à TVI, “ontem éramos milhões, hoje já não somos muitos!”.

1 / 1
FOTO: Direitos Reservados
Finlay Tarling morreu aos 19 anos

Irrepreensível

Pub

Quem me acompanha na revista ‘Boa Onda’ sabe que sou exigente. É por isso que sou tão crítica e é por isso, também, que sou exigente no elogio. Tornou-se cíclico, nestas páginas, elogiar o acompanhamento que a RTP faz da Volta a Portugal em Bicicleta. Faço-o quase todos os verões e sempre pelas mesmas razões: sabem do que falam, gostam do que fazem e tratam a prova com um cuidado que não se aprende em nenhum estágio. Este ano volto a fazê-lo, mas em circunstâncias que não desejava. Há exatamente uma semana, com a emissão em direto, chegou a notícia da morte de Finlay Tarling, ciclista britânico da NSN. 19 anos!

Mudar de registo em direto é das coisas mais difíceis que a televisão pede a quem o faz. Não há guião, não há intervalo para pensar, não há maneira de recuar sobre o que já se disse. E há sempre a tentação de fazer o contrário do que se deve: encher o tempo, procurar a lágrima, perguntar a alguém como se sente.

João Pedro Mendonça e Marco Chagas não fizeram nada disso. Baixaram o tom, deram a informação que tinham, calaram a que não tinham e não ocuparam um único segundo com emoção fabricada. Com Alexandre Santos e Ana Barros conduziram o resto da tarde sem uma pressa, sem um excesso, sem uma pergunta a mais. A prova continuou, como estas provas continuam, e foi preciso narrar uma corrida em luto sem transformar o luto em espetáculo. Conseguiram.

Pub

Um abraço para os quatro.

Arrumar a casa

A Media Capital fez questão de noticiar a renovação do contrato de José Eduardo Moniz como diretor-geral da TVI. E fez bem! Primeiro porque mostra que na empresa há uma regra assumida: garantir a solução antes de erradicar outro problema. E depois porque com este anúncio sinaliza muito bem que se, por algum motivo, alguém achasse que ia aplicar a Moniz o mesmo tipo de manobra que, rezam as crónicas, aplicou a Rangel, não vai ter sorte nenhuma. É que pior do que a fama de um episódio solto é o rótulo que se cola quando o estilo acompanha o personagem ao longo da história...

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar