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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

Ninguém suicida ninguém

28 de junho de 2026 às 00:30

Um homem de trinta e três anos lançou-se de um oitavo andar, no domingo, em Santarém, com a filha de quatro. Antes houve uma discussão com a companheira e mãe da criança, em contexto de violência doméstica, denunciado em 2024 sem efeitos práticos. A primeira nota sobre a tragédia é gramatical. O verbo suicidar-se é pronominal, sendo o pronome "se" sua parte integrante. Ninguém suicida ninguém e a expressão “suicídio alargado” é descabida, embora haja pactos suicidas como o de Romeu e Julieta. Mesmo nos casos de motivação altruísta, em que o homicida mata um filho para o salvar de putativo sofrimento (caso célebre foi o sêxtuplo filicídio cometido por Joseph e Magda Goebbels no Bunker de Hitler), nada confere ao pai e à mãe o direito de decidirem sobre vida e morte de um ser que trouxeram ao mundo, mas se tornou autónomo. Não são concebíveis circunstâncias que justifiquem o filicídio (apenas a legítima defesa, sujeita a especial moderação) ou o desculpem (ressalvada a inimputabilidade).

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