Uma das maiores batalhas ganhas pela democracia foi acabar com um País analfabeto. O esforço para massificar a aprendizagem, tornando o ensino obrigatório, é um hino de glória de que se devem orgulhar todos aqueles que libertaram o País dessa mordaça primordial. Saber ler e escrever, descobrir os mistérios da vida, é uma utopia fundadora do republicanismo.
Porém, esta massificação do ensino, vitória contra o reino das trevas, rapidamente resvalou para um patamar de contradições que nunca permitiram que educar significasse produzir gente mais capaz e uma sociedade mais culta. Com exceção de dois ou três grandes reformadores, Veiga Simão, Roberto Carneiro, Marçal Grilo, sucederam-se governos incapazes de compreender a Escola republicana, sonhada pelos seus pioneiros oitocentistas. Basta ler a célebre Conferência do Casino ‘As Causas da decadência dos Povos Peninsulares’, feita por Antero de Quental, para se perceber a dimensão épica do desafio.
A massificação do saber, afinal, não trouxe o fim da subnutrição intelectual. Aprender não significou exigência. Não entendeu as profundas alterações e exigências que se colocavam perante um mundo cada vez mais veloz, mais díspar no que respeitava ao fosso entre pessoas e os seus sonhos. Ficámos sentados sobre aquela extraordinária vitória, a inventar as formas mais fáceis de desfazer a Educação como motor essencial do progresso, enfraquecendo a República. Não há governozinho que não traga uma reformazinha para fazer no domínio da educação. Seja para afinar professores, seja para reinventar currículos, seja para facilitar uma escola cada vez mais exaurida de exigência e qualidade. O atual governo ainda não aqueceu o lugar e já fez a sua. Acabar com exames. Nivelar por baixo. Massificar a preguiça. Ignorar o mérito. Trocar por populismo barato os grandes desafios que País tem para vencer.
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