Tem sido comovente ver a indignação do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista Português (PCP) com a recusa do novo presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD) em tornar pública a sua declaração de rendimentos. É caso para dizer: ‘tarde piaste’.
O BE e o PCP aceitaram o aumento do número de administradores da CGD, o aumento dos seus salários para níveis próprios do sector privado, uma recapitalização que pode chegar a 5 mil milhões de euros, um plano de reestruturação que implica o despedimento de 2 mil pessoas e o fecho de um número indeterminado, mas certamente elevado, de balcões. Sejamos claros: para quê fazer isto tudo senão para tornar a CGD indistinguível dos bancos privados?
Bem podem o Partido Socialista mais o BE e o PCP fazer grandes declarações de princípios sobre a manutenção da CGD ‘100% pública’. A partir do instante em que tudo aquilo foi aceite, a CGD pode permanecer 100% pública mas terá de actuar como qualquer banco privado.
Praticamente ninguém chorará o desaparecimento da velha CGD, um sorvedouro de dinheiro que servia sobretudo para dar tachos a políticos, negociatas entre amigos e golpadas bancárias. Mas convém perceber o que se passa: a CGD de que a esquerda tanto diz gostar, pública, dedicada ao financiamento da ‘actividade produtiva’ e de ‘projectos estratégicos’ foi morta pela própria esquerda. Diz que foi a Europa que mandou. Ah sim? Então não era a esquerda que ia ‘bater o pé’ à Europa?
Ou seja, o novo plano para a CGD é transformá-la num banco como os outros. De tal maneira que, no final da tal reestruturação, até pode vir a ser privatizada. Talvez o plano final seja mesmo esse. A ‘crise da declaração de rendimentos’ servirá para o BE e o PCP limparem a sua impecável consciência de esquerda e mostrarem serviço aos seus eleitorados. Mas não muda nada ao futuro da CGD.
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