Recordo-me que naquele ano não se falava noutra coisa. O Alentejo ia ter um festival e como se não bastasse era por lá que Marilyn Manson iria passar… no auge da carreira.
Estávamos em 1997 e já muito se escrevia sobre Brian Hugh Warner, um músico à data com 27 anos, a quem se atribuíam, entre outras bizarrias, um episódio de prisão por ter urinado sobre o público, a sodomização de uma fã invisual, a ligação à igreja de Satanás, a violação de sepulturas num cemitério de Nova Orleães e a famosa intervenção cirúrgica para tirar duas costelas afim de conseguir fazer sexo oral a si próprio.
Na tarde antes de subir ao palco, corriam no recinto os rumores de que Manson teria pedido à organização comida para cão e garrafas de oxigénio. O espetáculo foi no mínimo tétrico. De corpete, meias de senhora e um cinto de ligas, Manson insultou, pediu para o insultarem, autoflagelou-se, agrediu os companheiros de banda, limpou o rabo à bandeira americana e destruiu a bateria com o tripé do microfone.
Antes do concerto, já Manson nos tinha recebido para entrevista em ambiente de mil e uma noites numa tenda marroquina. Reconheceu que gravava os discos sob o efeito de drogas, explicou que representava a insatisfação das pessoas contra o politicamente correto e negou muitas das histórias que se contavam sobre si.
"São inventadas por pessoas doentes que não entendem porque têm medo de mim", disse. Foi nesse ano que a Zambujeira do Mar mudaria para sempre com a invasão de 40 mil pessoas. A cerveja acabou e até houve empregados de cafés a despedirem-se por causa do volume de trabalho.
Muito barulho se fez durante três dias na pacata e pacífica vila alentejana. É bem possível que, por lá (e arredores), existam ainda hoje vacas de terceira geração que não deem leite, mas já nada nem ninguém vive sem o Festival...
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