Eduardo Cintra Torres

Mesquinhez no Dia da Independência

04 de dezembro de 2016 às 00:30
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O 1º de Dezembro tem tido uma história atribulada. Foi o primeiro feriado nacional civil e assim atravessou todos os regimes. A sua suspensão pelo governo anterior, com o acordo da Concertação Social, por imposição da troika, permitiu à "esquerda" reivindicá-lo pela primeira vez, não por apreciá-lo ou lhe estar associada, mas por oposição ao governo de Passos. Dado que o Estado Novo fez dele também dia da Mocidade Portuguesa e o comemorou com pompa e circunstância, a "esquerda" sempre o olhou com desconfiança. Por seu turno, a "direita", depois do 25 de Abril, ocupou o espaço das comemorações e fez dele uma bandeira contra a "esquerda" pró-soviética.

A principal "esquerda", com o seu défice de patriotismo, por ser internacionalista, e alguma "direita", com o seu excesso de patriotismo, por ser nacionalista, também a respeito do 1º de Dezembro se extremaram. E, assim, o 1º de Dezembro, apesar de ser o único dia festivo de uma data concreta da independência de Portugal – dado que o 10 de Junho é uma escolha arbitrária –, tornou-se factor de divisão num dos países mais antigos e mais homogéneos do Velho Mundo.

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Aquela "esquerda" e aquela "direita" esquecem que o 1º de Dezembro e o 25 de Abril têm semelhanças fundamentais: ambos foram golpes de Estado, ambos foram muitíssimo pacíficos, ambos partiram de elites insatisfeitas com o regime vigente, ambos recolheram de imediato, nas próprias manhãs iniciais, claras e limpas, dum sábado em 1640, duma quarta- -feira em 1974, o apoio popular em Lisboa, e logo em todo o País.

As datas memoráveis são sempre aproveitadas ao sabor dos tempos e a tradição vai-se inventando e reinventando. Aconteceu de novo nas comemorações de quinta-feira nos Restauradores. Em vez de realmente celebrarem a restauração da independência, serviram para fazer baixa política de actualidade com um revanchismo despropositado e feio. E foi só isso que saiu nas notícias. Governo e "esquerda" apropriaram-se e comemoraram pela primeira vez o 1º de Dezembro, não por convicção, mas para se vingarem da suspensão do feriado. E o presidente da República, de quem se esperava um discurso consensual, introduziu ele mesmo a discórdia. Em vez de voar alto como os nossos falcões amestrados, agora Património Mundial da UNESCO, voou mais baixo do que uma galinha.

Ainda mais baixo voou a RTP. Segundo José Ribeiro e Castro, administradores e directores da RTP "revogaram a decisão de transmissão integral, em direto", das cerimónias, para em vez dela fazerem uma das suas trezentas celebrações anuais da própria RTP. O 1º de Dezembro afunda- -se em toda esta mesquinhez.

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Governo nos media: socratinismo soft

Em apenas um ano, o governo PS conseguiu um feito notabilíssimo que as "comemorações oficiais" do aniversário por comentadores babados deixou de fora da prosa panegírica: a progressiva avançada das suas tenazes no espaço mediático. Em vez da brutalidade e ilegalidade do governo Sócrates, tem-na feito como quem não quer a coisa. É um socratinismo "soft". Estabilizou o controle do grupo ‘DN’-TSF-‘JN’, porta-vozes do governo e de Sócrates. Conseguiu, como que por milagre, uma direcção simpática no ‘Público’, na linha da anterior. Tem a TVI na mão. Na RTP, impôs ao director de Informação dois directores, António José Teixeira e André Macedo, profissionalmente desnecessários mas politicamente necessários. O presidente da RTP, Gonçalo Reis, deixou-se transformar num instrumento do governo, através do administrador Nuno Artur Silva, que manda nele e nos conteúdos, contra o que diz a lei. Falta ao governo manter o controle na ERC. Veremos em Janeiro.

RTP nomeia provedor do Governo  

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O dono da RTP, Nuno Artur Silva, indicou como provedor do espectador da RTP um antigo director, Jorge Wemans, que quase destruiu a RTP 2, ingeriu- -se intoleravelmente num programa da 2 em 2009, foi nomeado para cargos pelo PS, servindo os governos de Guterres, Sócrates — e agora o de Costa. Será um provedor do poder, não do espectador.

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