Marcelo Rebelo de Sousa prestou-se à festa ao vivo e em directo dos 24 anos da TVI. Os canais de TV inventam razões para uma constante efervescência: 21, 23 ou 24 anos, tanto faz para se festejar. E para Marcelo todos os dias são de festa. Ali foi o "ano de presidência", quando passavam 11 meses.
Recebido como sendo "da casa", pois foi ela a rampa de lançamento da sua eleição, Marcelo deixou-se apropriar pela TVI. Alberto Carvalho apresentou-o como "o presidente de todas as televisões", um bom retrato. Primeiro os media.
Ingenuamente, Ferreira Leite festejou no programa que Marcelo é "ele mesmo" (frase típica de concorrentes de reality shows) e não está a representar. Viu-se ali o contrário. Representou: beijos e abraços, palmadinhas nas costas de e a Judite Sousa, Carvalho e Pedro Pinto (chamou-lhes o "Trio Harmonia"), comentários sobre o estúdio ("parece muito maior") e uma actuação em "standing news", com o chefe do nosso Estado dum lado para o outro em conversa de café e respondendo a perguntas (foi a segunda entrevista à TVI).
Do "ano de presidência", a TVI mostrou dois momentos de espectáculo mediático: Marcelo dançando em Maputo e António Costa protegendo-o com um chapéu de chuva em Paris. Para a TVI, foi o mais "marcante".
Sobre a presidência, Marcelo disse três vezes que se "atravessa" amiúde nos assuntos, disse pelo quinto dia consecutivo que o caso CGD "está fechado" (se estivesse não teria de o dizer), e que fez, pelos seus cálculos, 1500 selfies em três dias.
O momento significativo da festa conjunta Marcelo-TVI foi o dos comentadores à distância, uma bizarria que ele decerto aprovou antecipadamente. Os comentadores não estavam junto dele, no espaço vazio, mas noutro local a alguns metros, falando por interposto ecrã, criando uma distância entre os que são "de dentro", o "Trio Harmonia", e os que comentam "de fora".
Em vez de os ouvir e calar, o ex-comentador comentou os comentários de comentadores sobre o ex-comentador. Assim se fecha o círculo no modelo actual da política em que a comunicação comunica comunicação sobre comunicação. É o terreno da política-espectáculo e pasto para a "pós-verdade" e para os populistas que possam aparecer. Constança Cunha e Sá salientou estas características de Marcelo-presidente: "relacionar-se directamente com o país", "não depender da intermediação dos partidos" e "autoridade acrescida" em resultado da "popularidade da presidência". São três propulsores do populismo, que Constança alegremente elogiou. O mal que não diria destas tácticas políticas se estivesse a referir-se a Donald Trump ou a Marine Le Pen!
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A ver vamos: CGI da RTP - Lavando as mãos como Pilatos
O Conselho Geral Independente (CGI), a nova sumidade institucional da RTP, produziu um relatório sobre o cumprimento do "serviço público" em 2015. Saiu a 16 de Fevereiro: 14 meses depois de acabar 2015, sem qualquer efeito sobre o devir da RTP em 2016 e primeiro semestre de 2017.
O CGI pegou nas 500 páginas da análise duma auditora externa e escreveu um resumo que cabe numa dúzia de páginas. Lavou as mãos: se a auditora diz, nós dizemos, e por aqui ficamos.
O relatório quantifica o cumprimento do "serviço público" a partir de 371 indicadores. Deste género: a RTP tem programas de informação? Sim, então cumpre. É genial. O estudo, quantitativo, ignora em absoluto o cerne do que é um serviço de media: programas concretos de rádio e de TV. Por hipótese, todos os programas poderiam ser péssimos que o método do relatório não os avaliaria.
Na sua inutilidade, o CGI mostra a sua utilidade: foi capturado pelo sistema, serve o sistema, não os cidadãos.
Já agora: Lá como cá, o poder não gosta do escrutínio
Os ataques de Trump aos media vão passando os limites na tradicional tensão entre jornalismo e poderosos. Chama "notícias falsas" e "inimigos do povo" a media respeitáveis, impede-os de assistir a uma conferência de imprensa. Achá-los enviesados é razoável, agir como ditador em democracia é outra. Sem escrutínio do poder não há democracia
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