Pedro Santana Lopes

Um líder sensível às pretensões de Portugal

27 de setembro de 2015 às 00:30
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O antigo primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen, era uma pessoa especialmente interessada nas relações com Portugal. A Dinamarca tinha assumido a presidência rotativa da União Europeia no segundo semestre de 2002 e o Governo português tinha, na altura, apresentado junto da mesma um pedido de revisão dos termos de aplicação da Política Agrícola Comum (PAC) ao nosso país.primeira metade da década de 90, que levantava a questão da agricultura e também das pescas em congressos do PSD e em entrevistas públicas. Reclamava contra o facto de Portugal ser tratado como se de uma grande potência se tratasse e ser pago para ter campos em pousio e para abater unidades à sua importante frota pesqueira.

Esse era um tema frequente das conversas entre Durão Barroso e eu porque, da minha parte, já há uns bons anos, pelo menos desde a

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primeira metade da década de 90, que levantava a questão da agricultura e também das pescas em congressos do PSD e em entrevistas públicas. Reclamava contra o facto de Portugal ser tratado como se de uma grande potência se tratasse e ser pago para ter campos em pousio e para abater unidades à sua importante frota pesqueira.

Nas várias instâncias em que era possível fazê-lo, desde a direção partidária até conversas pessoais, várias vezes esse tema da agricultura veio à colação e à análise entre Barroso e eu nas muitas reuniões que na altura tínhamos. Lembro que Durão Barroso apresentou esse pedido de revisão dos termos de aplicação da PAC numa cimeira que houve em Copenhaga. E foi uma iniciava que foi recebida com alguma surpresa na UE.

Rasmussen, como o futuro veio a comprovar, era um homem pró-ocidental, que não tinha hostilizado as posições dos Estados Unidos e seus aliados na questão do Iraque e, por isso – e por muitas mais razões –, as relações entre Portugal e a Dinamarca estavam num momento especialmente bom. Foi, assim, natural que tivesse sido marcado um encontro entre as duas assessorias diplomáticas para um dia anterior à assinatura do Tratado Constitucional para a União Europeia, cerimónia essa que decorreu em Roma no dia 29 de outubro de 2004.

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Rasmussen e os membros do seu gabinete receberam-nos na Embaixada da Dinamarca na capital italiana e tivemos uma muito proveitosa reunião de cerca de duas horas e meia sobre os assuntos que dominavam a agenda europeia e as relações bilaterais. A questão principal que estava em cima da mesa era a da evolução do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), ou seja, vexata quaestio: saber-se como conciliar o cumprimento do limite do défice, portanto, a contenção orçamental, com as necessidades de crescimento das economias. Recorde-se que à época a Alemanha e a França estavam em situação de ultrapassagem do limite dos três por cento.

Ao contrário de vários dos seus compatriotas, Rasmussen é uma pessoa de trato nada distante, com muita afabilidade e cordialidade. É aquilo que se pode chamar um verdadeiro relações-públicas e esses atributos, aliados à sua inteligência e experiência política, permitiram-lhe poucos anos mais tarde concitar apoios para ser eleito secretário-geral da NATO.Também nessas funções demonstrou ser uma pessoa simultaneamente determinada e com capacidade de diálogo, procurando sempre soluções de paz, mas sem nunca vacilar nos seus princípios e nas suas convicções na defesa dos fundamentos da civilização ocidental ou da democracia como nós a conhecemos. Cessou funções na NATO há pouco tempo, com o reconhecimento da generalidade dos estados-membros, e conseguiu manter a organização coesa e consolidar a sua abertura a países da Europa Oriental, trabalhando para o equilíbrio sempre difícil nas relações com a Rússia. Mas também quero referir que enquanto primeiro-ministro do seu país foi sempre compreensivo e apoiante em relação às pretensões portuguesas.

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