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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

À procura de astros

22 de agosto de 2026 às 00:30

O eclipse suscitou um fenómeno de partilha, euforia coletiva e astrofilia, refletindo a longa caminhada humana. A palavra tem um étimo grego (“ekleipsis”) que significa abandono, e exprime a ideia de os deuses nos deixarem à mercê de guerras e calamidades ao dissimularem o sol. As civilizações antigas interpretavam o eclipse como prenúncio de castigo divino. Freud serviu-se dele para explicar a angústia neurótica através de uma metáfora antropológica, distinguindo o temeroso homem primitivo do sucessor moderno, cujo conhecimento permite antecipar e reagir sem ansiedade ao fenómeno. Porém, mais do que a ausência de angústia, o eclipse originou uma efervescência coletiva (no sentido de Durkheim) que pôs a comunidade a olhar para o céu, comungando uma emoção sem barreiras sociais, políticas ou culturais. O eclipse real gerou o efeito oposto ao eclipse humano da sociedade descarnada e despida de afetos, antecipada por Antonioni há mais de sessenta anos. Para além de objeto científico e artístico, é um bom tema de reflexão para os nossos políticos. Conseguirão despir a pele de símbolos astrológicos para se converterem em astros genuínos?

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