O Entrudo tem sido o melhor sintoma de que estimulantes conceitos populares de escárnio e maldizer ainda se espraiam pela imaginação dos inventores de corsos, cegadas e bailes de máscaras. E assim se vão evitando, quase de borla, dispendiosas depressões e outras tristezas.
Este ano, as estrelas carnavalescas foram a ‘geringonça’, mais Marcelo e António Costa, não havia que enganar. Trocou-se Vítor Gaspar por Centeno e as carantonhas de Cavaco e Maria Luís Albuquerque aguentaram-se bem.
Durão Barroso agradece ser esquecido e Dias Loureiro, que se fez de morto, não aparece há anos. Portas, com seu adunco e sugestivo nariz, e Sócrates, com seu ostensivo nariz redondo, mantêm-se no activo carnavalesco, mais o inevitável Ricardo Espírito Santo.
Este ano, Joaquim, agente sulista da PSP, decidiu-se a passar o Entrudo no Norte, região natal da mulher. Conseguiu uns dias de folga e lá foi ele! Polícia com anos de currículo, operacional de rua, tem sentido na pele e no bolso as crises e outras restrições – heranças fixas de troikas e governos, ministros e chefias. Joaquim tem engolido impropérios e ideias de vingança. Limita-se a desabafar palavrões com a mulher, de cada vez que vêm à baila ‘offshores’, Espíritos Santos, Sócrates, Cavacos, Núncios, bancos ou fiscos.
Joaquim mete todos no mesmo saco. "Cambada de chulos!" A mulher preocupa- -se, acha que o marido devia consultar um psiquiatra. Joaquim finge que não ouve. E lá vai ele, mascarado, juntar-se ao corso, logo atrás do carro com os ‘bonecos’ da política. Boa pontaria, Joaquim vai-lhes acertando com estrondosos sacos de água. Às tantas, sente uma mão nas costas.
"Ó Joaquim! Tu por aqui!?"
É um agente da sua esquadra do Sul. O colega abre a boca de espanto.
"Eh pá! E vieste fardado!"
Joaquim baixa a voz.
"Não tenho crachá e tirei as divisas. É tudo legal…"
O colega preocupa-se.
"Se o chefe sabe, vai haver estrilho!"
Joaquim encolhe os ombros e, de raiva, acerta com outro saco de água no ‘político’ mais à mão.
"Que se lixe! Cada um mascara-se do que pode. E como não os posso prender a sério… vai a brincar!" E assim poupa Joaquim um dinheirão em psiquiatra.
antiga ortografia
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