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Na semana passada vi mais daquelas imagens que a actualidade teima em tornar banais, mas continuam a ser insuportáveis. Um homem indefeso, sob ameaça de morte, é posto perante uma câmara que o filma, e fala. No correr da frase anterior eu tinha escrito “enfrenta uma câmara”. Emendei, naturalmente. Só enfrenta quem pode, quem decide. Um refém (no caso era o inglês Kenneth Bigley) nas mãos de fanáticos islâmicos não pode nada.

Há muitos anos, alguém definiu o que fazer, numa frase daquelas que se escrevem na alma como se grava na pedra. Aldo Moro, político italiano de direita, tinha sido raptado pelos esquerdistas das Brigadas Vermelhas. Estas divulgaram uma foto de Moro, de olhar desamparado. No jornal francês ‘Libération’, então próximo dos esquerdistas, o director Serge July escreveu: “Quando um homem nos olha como Moro, sabendo que aqueles que o guardam podem tudo contra ele, há só um lado a estar: ao lado do homem.”

Anos depois, repórter, estive durante semanas com as tropas de Jonas Savimbi, no Leste de Angola. Um dia, entrevistei o chefe guerrilheiro, numa enorme cubata circular. No centro, onde poderia ser um altar, eu e Savimbi. De costas para a parede circular, sentados, uma vintena de dirigentes da UNITA. Eu conhecia alguns ­ Nzau Puna, então o n.º 2, e que se passaria depois para o lado governamental, Jeremias Chitunda, que lhe sucederia como delfim mas que seria morto em Luanda. Entre os desconhecidos, um jovem chamou-me a atenção, não sei porquê. No fim da entrevista, ao passarmos pela porta larga da cubata, o líder da UNITA fez--me parar frente ao jovem e perguntou-me: “Sabe quem é este?” Respondi que não. “É Wilson dos Santos, que vocês jornalistas andam a dizer em Lisboa que eu matei. Não o quer entrevistar?” Pergunta feita e já alguém tinha posto um microfone da Vorgan, a rádio rebelde, à minha frente.

Wilson dos Santos era um dirigente da UNITA que constava ter caído em desgraça. Era um homem alto, magro, com uma elegância marcada pelo sobretudo no meio da savana, insólito apesar do começo do cacimbo. E tinha um olhar que eu reconheci. Ouvi-me dizer, enquanto o encarava: “Não, não o quero entrevistar. Não entrevisto homens presos.” Ele manteve os olhos nos meus. Ele estava triste, digno e perdido. E eu fiz bem em não o ouvir dizer coisas que não seriam ele a dizer, porque ele não era dono de si. Mais tarde seria morto, com a sua mulher e os filhos.

Não, eu não entrevisto presos ­ presos daqueles que aqui se fala, homens completamente desamparados, perante poderes totalitários. Não, eu não poria nos noticiários as imagens de Kenneth Bigley, a falar contra Tony Blair. Palavras que contam, só a dos homens livres. O que conta de Bigley é que aos 60 anos arranjou forças para fugir durante mais de meia hora dos seus algozes, antes de ser morto e decapitado. Ele merecia que estivéssemos ao seu lado, não permitindo que fosse visto a debitar o que lhe disseram para dizer.

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