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Graças a uma valorização do seu património, Mértola atrai muitos visitantes, sobretudo na época de férias, na passagem para o Algarve. Foi o que me aconteceu e deparei com o que vou contar.

Onde fundamento o título para esta crónica, perto do tempo de reflexão para o exercício do dever de votar? A vergonha situa-se na Igreja Matriz de Mértola. Antes de descrever a actualidade, situemo-nos na importância deste edifício.

A actual Matriz de Nossa Senhora da Assunção ou de Entrevinhas ou Entre Ambas-as-águas (Rio Guadiana e ribeira de Oeiras) resulta de um arranjo do segundo quartel do século XVI, a partir de uma mesquita almóada do último quartel do século XII. Corresponde a um espaço quadrangular de cinco naves perpendiculares à quibla, sendo a central mais larga. Conservou-se da antiga mesquita um curioso nicho da mihrah, com decoração típica em gesso de arcos cegos polilobados. Com a conquista do século XIII passou a igreja e devido à alteração manuelina alteou a abobadagem, sem perder o sabor mourisco da volumetria.

É só quase para o tecto, com o seu belo cruzamento de ogivas, que agora podemos olhar, com sossego. O actual estado de utilização litúrgica criou uma tal confusão de eixos que gera uma perturbação desoladora. O impróprio altar está fora do eixo da construção, sobre um estrado desconexo. Existem dois solenes altares de pedra, destacados da parede, um de cada lado do referido nicho, e, por isso, agora laterais, como suporte para as banais imagens do Coração de Jesus e do Coração de Maria. No fundo, agora lateralmente, há imagens de santos e pinturas antigas na parede, sem qualquer ordem ou indicação. À entrada, somos recebidos por uma pessoa, atrás de uma mesa, com artigos para venda. Está tudo tão descuidado, tão mal arrumado que faz doer.

Estranha-se que numa diocese tão apreciada por cuidar do seu património, como Beja, nos surja tão mau exemplo. Manifestei ao Bispo António Vitalino a minha desolação. Soube então que desentendimento entre tutela e paróquia, falta de resposta do Estado para encontrar uma solução constituem explicação para tal desamparo. Mas só o marasmo justifica tal vergonha.

Será fundamental encarar com determinação este caso raro onde os visitantes percebem a existência de mesquita antecedente, na actual Igreja Católica. O interior da Igreja Matriz destoa profundamente da acção de conhecidos investigadores que tanto têm contribuído para recuperar os vestígios dos sucessivos moradores de Mértola.

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