Só crimes que a senhora tinha cometido eram mais de trinta. A fuga espectacular, que alguns desconfiaram ter cumplicidades no tribunal, e as entrevistas a partir do Brasil inflamavam mais os noticiários. Suspeitava-se de que a foragida tivesse um tal saco azul que alimentava os cofres do PS, que fizera favores criminosos ao clube da terra, que tivesse praticado tantos crimes que era o exemplo maior da pouca-vergonha e corrupção no poder local. Entretanto, o PS já a tinha posto no saco das bugigangas inúteis, pois era crime a mais e vergonha a menos. Fátima Felgueiras respondia de longe a tudo isto. Estava inocente. Era vítima de uma perseguição do Ministério Público, que fugiu porque queria defender-se e quando chegasse a hora regressaria. Não a conheço, mas pelo que vi na televisão pareceu-me determinada.
Regressou com aparato, transmissão em directo da sua entrega às autoridades. Foi ouvida pelo juiz. Na rua, milhares de pessoas saudavam Fátima Felgueiras. Candidatou-se à câmara e ganhou as eleições. Os julgamentos começaram. E os recursos. Dos tais trinta e tal crimes, dos tempos do carnaval, a coisa veio sendo reduzida, até ficarem três. E mesmo assim, com pouca saúde. Mais de uma década depois, a Relação veio declarar que não havia culpa nem responsabilidade da senhora, pelo que podia ir em paz. Fátima Felgueiras está livre e inocente de todos os crimes que lhe imputaram. E agora? A coisa fica assim? Claro que vai ficar.
A senhora deixou de ser a rainha do carnaval, perdeu importância, e a festa ganhou outros personagens. Depois dela, outros foram escolhidos entre os eleitos, porque o ‘show must go on’. E a Justiça cumpriu o seu papel. Ajudou a deitar os foguetes, mandou que apanhassem as canas e, no final, tudo acabou prescrito, arquivado e com inocência. Se fosse único, o caso Fátima Felgueiras teria alguma desculpa. Mas não é. Estas fogueiras da inquisição que ardem diariamente produzem mais vítimas do que culpados e dizem tudo sobre o estado miserável a que este Estado chegou.
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