A discussão revelou, por parte do agente (filho do companheiro da mãe da vítima), um ódio amadurecido e falta de autocontrolo e de preparação para superar, sem violência, um estado colérico. Para além de terem a mesma idade – 23 anos –, o agente e a vítima viviam do rendimento de inserção social e à pobreza foi-se somando a degradação emocional e a perda de respeito pela vida alheia.
É verdade, porém, que estes casos de explosão emocional não escolhem idades e ocorrem em todos os contextos sociais, revelando focos de desagregação frequentes na nossa sociedade. Impõe-se, por isso, uma análise profunda e rigorosa, que permita avaliar de que modo o discurso corrente sobre os valores éticos e os objectivos sociais pode contribuir para desencadear situações desta natureza.
O que parece ter juntado estes dois jovens num diálogo transformado em violenta discussão foi um banal objecto de consumo. Não existiria entre eles, provavelmente, nenhum laço de união mais profundo, como também não existe entre pessoas que se agridem por causa do futebol ou se prontificam a injuriar e difamar os adversários políticos, ainda que esteja em causa a coesão nacional.
Porém, os laços de união têm de ser recuperados e desenvolvidos. Não podemos viver numa espécie de guerra civil. As traves mestras da comunidade têm de ser evidenciadas por cada um de nós, no âmbito das suas funções. Sentir que a vida do outro é preciosa deve aprender--se com naturalidade, mas, se isso não acontecer, terá de ser ensinado pela política, pela educação e pela cultura.
Devemos punir casos deste tipo como homicídios qualificados? O agente é especialmente perverso ou censurável? As pessoas que actuam assim são perigosas e a sociedade tem de se defender, desenvolvendo políticas de prevenção mais eficazes do que o discurso inflamado dos justiceiros. Mas também devemos reconhecer que as penas ressocializadoras ajudam a tornar irrepetíveis os crimes.
É necessário saber como se previnem estes crimes. Há que procurar uma via para deter, na sua génese, as discussões violentas sobre óculos de sol ou outras parecidas. Com triste ironia ou piedade, os jornais referiram que a vítima, a esvair-se em sangue, disse que estava a deixar de ver. A hora da morte mostrou que o "essencial invisível para os olhos" de que falava Saint-Exupéry é, afinal, ver.
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