page view
Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

Polícias em arrastão

27 de junho de 2005 às 17:00

Esta semana foi posta à prova a central de comunicação do Governo e bem se deve dizer que é o que de melhor organizado se viu nos últimos anos. O ‘arrastão’ de Carcavelos começou por ter, segundo testemunhas oculares e, até, de jornalistas que estavam no local, cerca de 500 pessoas. Logo nessa noite, a autoridade policial fez uma correcção e amenizou as primeiras notícias. Eram entre 300 a 400 jovens.

Os ‘skinheads’ reagem com uma manifestação contra os ‘pretos’ afirmando alto e bom som que “isto é nosso!”, não se sabendo bem o que é deles, e surgem as notícias de que afinal a Polícia não tinha identificado nem detido ‘pretos’, mas oito ‘claros’ bem portugueses e uma brasileira que foi dentro por ter dado um pontapé num polícia e já se adiantava a verdadeira explicação para o ocorrido: em Carcavelos estavam apenas 50 jovens a roubar que foram cercados pelos restantes duzentos. Ah! E agora já eram ‘pretos’ outra vez.

Mas a Polícia está em greve, faz manifestações, e a coisa muda de figura. Os polícias, pela voz dos peritos de serviço à propaganda são vistos como detentores de privilégios corporativos e, por isso, é que refilam. Uns privilegiados, uns tipos que abancaram à custa do Estado e por isso agora gritam nas ruas e, segundo se diz pouco ou nada fazem. Até porque a intervenção em Carcavelos foi só para mostrar fardas.

Afinal aquilo não passou de uma briga entre um grupo de negros imediatamente envolvidos e protegidos por umas centenas de outros jovens zelosos e a culpa foi da Polícia que foi lá meter o bico só para chatear. Aliás, tendo em conta a conjuntura do momento, com os sindicatos de polícia a prepararem novas acções de protesto, não se vai estranhar que se instaure o tal processo de averiguações pois que existirão fundadas suspeitas de que o ‘arrastão’ de Carcavelos foi preparado minuciosamente por quadros sindicais da Polícia numa forma de enganar os pacatos cidadãos que pagam impostos, e não são privilegiados como são os ‘fardas’, numa clara operação de protesto ao serviço dos partidos da oposição.

É esta máquina de propaganda o produto mais acabado de cem dias de governação. Os adversários caem degolados na praça pública e a realidade escamoteada em nome dos superiores interesses, para não dizer valores pátrios.

Mas quem conhece a Polícia fica espantado. Não só pelo discurso mistificador sobre a criminalidade emergente na região metropolitana, como pelo mais completo descaramento com que se faz da Polícia um grupo de privilegiados que protesta por mera táctica política. Nem vale a pena desmonstrar.

Por mais que a propaganda governamental vá distorcendo a verdade, duas coisas são certas: a criminalidade dos bandos está a multiplicar-se na região de Lisboa e os polícias são dos profissionais mais mal pagos do País e mais maltratados. Tratá--los como privilegiados não passa de um acto de arrogância política. Coisa, aliás, a que os polícias estão habituados.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Logo CM

Newsletter - Bom Dia

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Ricos e pobres

É positivo haver mais milionários, mas o fosso entre ricos e pobres está a aumentar.

Blog

Estes não são tempos fáceis para os partidos de esquerda da Europa.

Vidas destruídas

Dois homens foram escravizados durante vários anos. Só no ano passado foram identificadas 250 vítimas deste tipo de crime.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8