Não há melhor território para entender o presente do que a história e a memória. É habitual invocar a Sicília e Palermo para ilustrar uma espécie de derrota eterna do Estado de Direito contra a Máfia.
Efetivamente, isso aconteceu ao longo de muitas décadas até que um grupo de polícias, magistrados, jornalistas e cidadãos anónimos travou uma batalha em defesa da honra, da dignidade e da legalidade. Uns poucos comerciantes recusaram o pagamento do imposto de proteção. Uns pouquíssimos jornalistas de Palermo, Corleone, Gela, Catania, que tinham vida e família no coração do polvo, nunca desistiram de perguntar nem de escrever o que viam e ouviam. Um punhado de polícias e magistrados não se refugiou no conforto dos gabinetes.
Arregaçaram as mangas e combateram o polvo nas ruas. Muitos pagaram com a vida a imensa coragem que os distinguiu, outros não e prosseguiram a luta. São eles que exemplificam o triunfo do Estado de Direito sobre o mal. Palermo hoje é isso, o seu triunfo, e não o excesso de um território subtraído à soberania do Estado italiano. A Máfia não morreu mas não é a dona da rua, da noite, dos estádios de futebol, muito menos das instituições e das consciências. Em Palermo, a autoridade do Estado não recuou para a trincheira impossível da cobardia e da cumplicidade.
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