Sócrates sempre deu muito jeito a Ventura. Os crimes daquele projetaram o líder do Chega, antes de ser uma estrela dos painéis da bola. Depois, os crimes de Sócrates e os erros do PS, também dos partidos à sua esquerda, em entenderem que não precisavam de uma sentença transitada em julgado para tirarem todas as ilações políticas sobre o tema, criaram o caldo ideal para a sementeira de indignação. Ajudaram a dar rostos ao “sistema” que ataca Ventura. Também no desrespeito pelas instituições há algo que os une. Sócrates tentou transformar o tribunal num circo. A juíza Susana Seca conseguiu travá-lo nesse abandalhamento e obrigou-o a fazer as decadentes conversas de vitimização com os jornalistas fora da sala. Ventura também quis fazer do Parlamento um circo e Aguiar-Branco disse-lhe ontem, com todas as letras, que as comissões de inquérito têm de ter um objeto claro, na matéria e no tempo, e se destinam a discutir questões políticas sérias. Não a gritar meia dúzia de indignações, como se viu na audiência parlamentar de Luís Neves e no debate da moção de censura. Ventura acabou empurrado para o habitual registo de vitimização, afinal, mimetizado de Sócrates. Um contra o Ministério Público, o outro contra o “sistema” e os “poderosos”. Duas tragédias portuguesas, cada uma à sua maneira e com o seu estilo.
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