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Eduardo Dâmaso

Eduardo Dâmaso

Jornalista

Outra forma de terrorismo

30 de agosto de 2026 às 00:31

Antes de ‘Pátria’, Fernando Aramburu, basco, há uma vida ‘exilado’ na Alemanha, já era um grande escritor. Com ‘Pátria’, também série na Netflix, Aramburu construiu a melhor obra literária sobre a violência da ETA. O que o ocupa não é o terrorismo enquanto fenómeno político ou histórico. Esse é o trabalho de grandes historiadores, filósofos, como Elorza, Savater, Soldervilla. Aramburu foi por outro caminho, como se volta a ver em ‘Maite’, o livro mais recente. Procurou a lenta sedimentação da violência na consciência dos indivíduos. Interessa-lhe menos o instante da explosão do que os anos que se lhe sobrevive. Interessa-lhe menos o sangue derramado do que o silêncio que permanece. É essa autópsia da dor que faz dele um grande escritor da memória. E bem percebe a densidade da sua obra quem conheceu os anos escuros de San Sebastián ou Bilbau nos anos 70 e 80. Em ‘Maite’, Aramburu explora uma variação mais íntima sobre as perguntas fundamentais: como continua uma sociedade depois da violência? Como se vive ao lado da memória? Como se ama quando o medo ocupou o espaço da convivência? E é uma variação essencial quando o pano de fundo é ocupado, sem ser protagonista, pelo assassinato de Miguel Ángel Blanco, esse momento trágico e heroico em que a maioria se ergueu contra o medo e a violência. Uma grande leitura de verão para escapar à indigesta agenda da política interna. Uma outra forma de terrorismo. 

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