As histórias desconhecidas de João Semedo
Médico e ativista pela morte assistida foi funcionário comunista e esteve preso em Caxias.
Distribuíam os panfletos de apoio à Comissão Democrática Eleitoral (CDE) na Av. da República, junto à estação de comboios da Parede e a menos de 200 metros da esquadra da PSP. Também teriam tarjas com frases como esta, a verde: "O regime de Marcel [sic] vive à custa da emigração – abaixo a exportação de carne humana." Ou como esta: "CDE abaixo o fascismo a força do povo."
O resultado não podia ser outro: às 16h daquele sábado, 22 de Setembro de 1973, o grupo foi surpreendido pelos agentes da polícia. Houve quem fugisse e largasse o casaco, os óculos ou uma carteira preta com 2.320 escudos (hoje seriam 400 euros). Uma mulher deixou os tamancos para trás. Mas oito homens e duas mulheres foram apanhados. Entre eles estava João Semedo, estudante do 5.º ano de Medicina e que lá tinha chegado com outras três pessoas que, segundo disse mais tarde no interrogatório da PIDE, não conhecia. Tinha-lhes dado boleia no Citroën CS desde o Estádio Nacional, mas a sua missão era apenas a de condutor.
A caravana de carros (um primeiro relatório da PIDE dizia que seriam cerca de 100 homens e mulheres) já tinha espalhado parte dos 50 mil panfletos impressos numa gráfica da Buraca, em Paço de Arcos, Oeiras e Carcavelos, segundo um roteiro apontado a lápis de carvão e marcador roxo numa folha A4 apreendida pela PSP. Faltou-lhes passar por Cascais e Malveira da Serra. João Semedo disse à PIDE que não distribuíra nada, nem fazia parte do movimento CDE, mas "como democrata" dava a sua "adesão na generalidade" ao comunicado de duas páginas em que se lia: "Todas as liberdades se encontram esmagadas pela força da violência".
Foi assim que, aos 22 anos, João Semedo caiu no radar da PIDE. Como os outros nove detidos, foi enviado para a prisão de Caxias e mantido em isolamento contínuo, conta a Sábado.
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