Incivilidade na AR mais do que duplicou desde a entrada do Chega no Parlamento
Partido é responsável por mais de um terço dos casos entre 2020 e 2025, conclui artigo científico.
Episódios de incivilidade na Assembleia da República (AR) mais do que duplicaram desde a entrada do Chega no Parlamento, partido responsável por mais de um terço dos casos entre 2020 e 2025, conclui artigo científico.
Manuel João Cruz, do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, analisou as transcrições de todas as sessões plenárias de debate sobre o Estado da Nação entre 2015 e 2025, concluindo que, com a entrada do partido liderado por André Ventura no Parlamento, os episódios de incivilidade mais do que duplicaram, disse à agência Lusa o investigador especializado em populismos.
Ao todo, o artigo científico analisa 2.021 interações, num total de mais de 50 horas de intervenções de deputados, procurando identificar, ao longo de um período de dez anos, todos os casos de incivilidade no Parlamento.
Para a análise, Manuel João Cruz utilizou uma definição ampla de incivilidade, dividindo-a em quatro categorias: interrupção (vaias e outras disrupções verbais), desrespeito intencional e obscenidades, ridicularização e provocação e agitação deliberada.
Em declarações à Lusa, o investigador notou que os casos de incivilidade passam de uma média de um episódio a cada dois minutos para um a cada minuto, aclarando que a média contabiliza partes das sessões plenárias "que têm muita formalidade".
Segundo Manuel João Cruz, não há grandes variações no aumento de episódios de incivilidade por parte de outros partidos, com o Chega a ser o principal responsável pelo aumento da frequência de interrupções e provocações no Parlamento, sobretudo a partir do momento em que passa a grupo parlamentar.
No artigo científico, o investigador nota que o partido é responsável por um quarto de todos os casos entre 2015 e 2025, apesar de só ter eleitos desde 2019.
De acordo com o trabalho, são sobretudo os casos de interrupções que aumentam de forma significativa, considerando que a interrupção "é um estilo do Chega", quase "estrutural" no partido.
"Parece que já faz parte do que é que o Chega é, que tem muito este estilo de disruptor", notou.
No entanto, não é o presidente do partido a liderar o top de deputados com mais episódios de incivilidade, disse.
Num outro artigo científico que está a desenvolver, Manuel João Cruz analisou os últimos 50 anos do Parlamento e fez um top de deputados recorrentes na incivilidade.
Nesse estudo, conclui que Pedro Frazão, do Chega, lidera o top dessa taxa (7,7% das suas intervenções totais são episódios de incivilidade), empatado com Filipe Melo, também do Chega, com a mesma percentagem, estando o pódio completo com Pedro Pinto, líder do grupo parlamentar (7,2%).
"Vergonha és tu, mete mais tabaco", "És um palhaço!", "Tu és um anormal", "És uma aberração, ganha vergonha!", "Vai para o Quénia!", "Vocês gostam é de drogas!", são alguns dos muito casos identificados proferidos por deputados do Chega.
O top 5 é completado com Luís Menezes, antigo deputado do PSD (6,8%), e Bruno Nunes, também do Chega (6,4%), sendo o sexto lugar de Rita Matias, também do partido.
Na lista, seguem-se Miguel Matos e Porfírio Silva, do PS, João Oliveira, do PCP, e Hugo Soares do PSD (todos com menos de metade dos valores registados pelos deputados do Chega que lideram o top).
O especialista considerou que o Chega atua num ataque que procura "lógicas antagonísticas", em que o adversário é pintado como um "inimigo a abater a todo o custo".
Para Manuel João Cruz, a AR não tem conseguido dar uma resposta a este novo fenómeno.
"Temos de pensar se o Parlamento é um espaço de debate em que as interrupções, os insultos, os protestos e o tentar interromper os outros é algo aceitável", disse, sugerindo a penalização de alguns segundos em intervenções futuras para partidos recorrentes.
A atuação tem "que ser muito ponderada e muito bem pensada porque não queremos também entrar em lógicas de restringir absolutamente o discurso e quase diminuir também o potencial de contestação", salientou.
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