PERFIL: Seguro regressa pela porta de Belém após uma década afastado da política
Candidato apoiado pelo PS recebeu um número recorde de votos na segunda volta contra André Ventura.
O socialista António José Seguro assume na segunda-feira o cargo de Presidente da República, quebrando uma década de interregno político, com a promessa de um mandato pautado por total independência.
Ao fim de 40 anos, as eleições presidenciais para a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa voltaram a decidir-se à segunda volta e o antigo secretário-geral do PS bateu, em 08 de fevereiro, o presidente do Chega, André Ventura, conseguindo um número de votos recorde: 3.502.613 votos (66,84%).
Seguro avançou sozinho e sem esperar por ninguém -- só quatro meses depois é que o PS o apoiou formalmente -- e, na sua apresentação, no Centro Cultural das Caldas da Rainha, que foi também o palco das duas noites eleitorais vitoriosas, anunciou uma candidatura "sem amarras", apartidária e aberta a todos os democratas.
"Sou livre, vivo sem amarras. (...). Reafirmo-o hoje, aqui, e assim agirei durante os cinco anos do meu mandato. A minha liberdade é a garantia da minha independência", prometeu no discurso de vitória no qual disse que será "o Presidente de todos, todos, todos os portugueses".
A vitória do antigo líder do PS representa também o regresso, ao fim de 20 anos, de um Presidente socialista a Belém, juntando-se a Mário Soares, Jorge Sampaio e Manuel Alegre como os nomes que o partido apoiou formalmente ao longo da sua história.
António José Martins Seguro nasceu em 11 de março de 1962 em Penamacor, é mestre em Ciência Política, pelo ISCTE-IUL, e licenciado em Relações Internacionais, pela Universidade Autónoma de Lisboa. É casado e tem dois filhos.
Após ocupar vários cargos públicos -- membro do Governo, deputado ou eurodeputado, entre outros -- Seguro afastou-se da vida política após a demissão de secretário-geral do PS, em setembro de 2014, na sequência da derrota das eleições primárias contra António Costa.
"Qual é a pressa?" é uma das frases que mais colada à pele lhe ficou, uma resposta aos jornalistas em janeiro de 2013 sobre quando tencionava a sua direção propor uma data para a realização do congresso do PS.
Remetendo-se à condição de "militante de base" depois de deixar a liderança do PS, que ocupou entre 2011 e 2014, o Presidente que toma posse na segunda-feira dedicou-se às aulas na universidade e aos seus negócios e manteve-se quase em silêncio sobre as questões políticas ao longo da última década, com raríssimas exceções.
Em novembro de 2024, numa entrevista à TVI/CNN, assumiu que ponderava uma candidatura a Belém, mas afastou o regresso à vida partidária. Desfez as dúvidas no dia em que o novo parlamento iniciou funções e anunciou que iria ser candidato.
Moderação, consenso e compromissos são palavras que usa frequentemente para qualificar a sua forma de estar na política e na vida, tendo apostado numa campanha "longe da lama".
Líder da JS entre 1990 e 1994, começou a aproximar-se da cúpula do poder socialista quando, no início de 1992, António Guterres bateu Jorge Sampaio na corrida a líder do PS.
Pela mão Guterres, conheceu uma ascensão rápida: desempenhou as funções de chefe de gabinete do secretário-geral, foi eleito deputado nas legislativas de 1991 e, a partir de 1994, fez parte da Comissão Permanente do Secretariado Nacional - o núcleo duro do "guterrismo".
Com a vitória do PS nas legislativas de outubro de 1995, Seguro assumiu as funções de secretário de Estado da Juventude, do qual sairia para se candidatar no segundo lugar da lista dos socialistas às europeias de 1999, atrás de Mário Soares.
Em 2001, regressou do Parlamento Europeu para ser ministro-adjunto do então primeiro-ministro, António Guterres
Durante a governação de Sócrates, Seguro esteve sempre na segunda linha, apesar de ter sido cabeça de lista por Braga nas eleições legislativas de 2005, 2009 e 2011, tendo coordenado a reforma do Parlamento em 2007.
Esperou pela saída de Sócrates e ficou de novo grande parte do tempo em silêncio, evitando fazer críticas em público à direção em funções, embora fossem conhecidas as suas divergências.
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