Ex-primeiro-ministro pediu às forças políticas que "não esperem umas pelas outras".
O ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho acusou hoje a esquerda de "desqualificar" o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e avisou que há reformas que só se fazem "em confronto", pedindo às forças políticas que "não esperem umas pelas outras".
Um dia depois de o presidente do PSD, Rui Rio, ter encerrado as jornadas parlamentares do partido a repetir a acusação ao PS de não querer fazer reformas nenhumas, Passos Coelho fez hoje em Lisboa a apresentação do livro do militante do PSD - e membro do Conselho Estratégico Nacional do partido - António Alvim "Um manual para a mudança da saúde".
Numa intervenção de mais de 50 minutos, acompanhada na primeira fila pelo candidato à Câmara de Lisboa Carlos Moedas, Passos apontou "um paradoxo" à esquerda no domínio da saúde em particular.
"Seria imperdoável que a esquerda, que diz que é uma espécie de 'alma mater' do SNS o esteja a desqualificar desta maneira e que seja a o que se chama de direita sempre a tentar salvar a situação e ver se lhe consegue dar sustentabilidade", disse, criticando o que chamou de "estatização" do SNS, que considera ter resultado na falta de atração dos profissionais e na degradação de equipamentos e serviços prestados.
Sem referir destinatários, Passo Coelho deixou o que classificou de uma sugestão de atuação política.
"Bem sei que há muitas reformas que gostaríamos que fossem tão consensuais que durassem o suficiente para que se vissem resultados. Mas espero que as forças políticas não fiquem à espera uma das outras, o país não pode perder continuamente com este jogo", apelou.
Para Passos Coelho, "quem quer vê os problemas vê, quem quer atuar atua, quem quer reformar reforma" e "quem não quiser que fique para trás no seu castelo, que fique a negar a realidade".
"Se o Governo que está em funções não os quer enfrentar, que venha um dia outro que os possa enfrentar, e se as reformas tiverem de se fazer em confronto que se façam, também é importante que a democracia funcione para isso", disse.
E acrescentou: "Se tivéssemos de estar de acordo em tudo o que é essencial e só divergíssemos no acessório, também não era preciso fazer eleições nem mudar os governos".
"Os governos mudam-se quando são precisas políticas verdadeiramente diferentes e depois cada um que assuma as suas responsabilidades", disse, elegendo a reforma na área da saúde ainda como mais prioritária do que a da segurança social.
Pedro Passos Coelho disse concordar com o autor do livro que Portugal "pode estar muito próximo de chegar a um ponto de não retorno" na saúde, considerando que o "crónico subfinanciamento" do SNS e a dívida crescente não têm resultado na melhoria do serviço, com o aumento da opção pelos serviços privados por quem pode pagar.
"Há quase 20 anos que se faz racionamento na área da saúde, isto não tem nada a ver com a 'troika'", afirmou, defendendo que o investimento nessa área, em percentagem do PIB, até era superior durante o Governo que liderou.
Passos Coelho apelou a que se "reconheçam os erros que se praticaram", como o recuo para as 35 horas na função pública ou o fim das Parcerias Público Privadas na saúde, e que se "arrepie caminho".
"Não tenho dúvidas que, a par do gravíssimo problema que temos de sustentabilidade de segurança social, o da saúde é um dos mais relevantes e mais urgentes que precisa, não apenas de uma reflexão, mas sobretudo de uma ampla reforma", disse.
Na base da falta de reformas nas várias áreas, considerou, está uma excessiva concentração do Governo "no curto prazo", na "sua sobrevivência" e na "gestão de poder".
"Vivemos num compromisso entre resolver os problemas de hoje e os de amanhã. Um governo em democracia que não satisfaça bem esta equação pode até durar e cumprir o seu mandato, mas não transfere para os que se seguem e para os seus cidadãos um resultado que seja satisfatório", defendeu, avisando que quanto mais tempo se levar a atacar os problemas "mais custosa será a solução" no futuro.
Quando Carlos Moedas chegou à apresentação do livro, fez questão de ir cumprimentar o seu antigo chefe de Governo, e os dois ficaram à conversa durante alguns minutos.
À saída, e como é habitual, Pedro Passos Coelho não quis prestar declarações aos jornalistas
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