"Barril de pólvora" à espera do verão nas zonas mais afetadas pelo fogo em 2017.
Os autarcas de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande (os concelhos mais afetados pelos incêndios de junho de 2017) estão preocupados com o impacto que o comboio de tempestades do início do ano pode vir a ter no verão.
João Marques, presidente da Câmara de Pedrógão Grande, diz “olhar para o território com muita preocupação, porque depois das tempestades, a queda de árvores e a quantidade de biomassa que existem neste momento na floresta tornam-na suscetível de acontecer uma desgraça idêntica àquilo que já aconteceu no passado”, admite o autarca. Dizendo não haver tempo para tirar “toda a madeira e biomassa” originadas, em particular, pela depressão ‘Kristin’, a 28 de janeiro, João Marques alerta também para a inexistência de mão de obra. O autarca assegurou, contudo, que a desobstrução de caminhos florestais está feita.
Em Figueiró dos Vinhos, o presidente, Carlos Lopes, partilha igual preocupação. “O problema é que o depósito [de lenha e resíduos] continua lá [na floresta] numa percentagem também bastante significativa. [...] Isso é motivo de grande apreensão”, assume, considerando que o território tem “um barril de pólvora que, eventualmente, pode contribuir para algum desassossego”. O presidente de Figueiró dos Vinhos reconhece que, “desde então, tem sido o trabalho de voltar quase à estaca zero”, para ter condições de encarar o verão com “maior resistência”, numa ação com o apoio de várias entidades.
Também o presidente da Câmara de Castanheira de Pera, António Henriques, subscreve idêntica preocupação. “Onde tínhamos feito intervenções, deixámos de ter matos para ter floresta do chão”, afirmou, notando que, se existia “falta de mão de obra antes da tempestade”, o problema “acentuou-se”.
Pormenores
539 mil hectares
2017 é o ano com maior área ardida dos últimos 25 anos. Arderam 539 921 hectares (mais de cinco vezes a área do distrito do Porto), grande parte deles nos fogos de Pedrógão em junho e de outubro na região Centro.
Tragédia. 116 mortos
Segundo os dados oficiais, morreram 66 pessoas, em Pedrógão. Em outubro, quando o País ainda recuperava desse evento, novos incêndios causaram outras 50 vítimas mortais, sobretudo no Centro.
EN236, estrada fatal
A Estrada Nacional 236 liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera e tem pouco mais de 19 km. Mas, num troço de 500 metros, perderam a vida 47 pessoas.
Ignição Raio culpado
O incêndio de Pedrógão Grande teve início às 14h43 de 17 de junho de 2017, junto à aldeia de Escalos Fundeiros. Teve origem, de acordo com investigação, em “descargas elétricas mediadas pela rede de distribuição de energia e por um raio”. Foi apagado quatro dias depois.
Onze pessoas, entre elas bombeiros, foram julgadas por homicídio por negligência a seguir à tragédia de Pedrógão Grande, mas acabaram absolvidas pelo tribunal. No processo das burlas com os fundos para a reconstrução, dos 28 arguidos, 14 foram condenados, mas a penas suspensas e ninguém cumpriu um dia de cadeia.
Concebido para responder às exigências operacionais associadas aos incêndios, o novo Centro de Coordenação Operacional da AFOCELCA (Agrupamento Complementar de Empresas para Proteção Contra Incêndios) é inaugurado, esta quarta-feira, na Figueira da Foz. A infraestrutura, nas instalações da CELBI, na Leirosa, pretende reforçar “a capacidade de monitorização, coordenação e combate aos incêndios rurais, apoiando um dispositivo que mobiliza cerca de 500 operacionais nos períodos de maior risco”. O secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, estará na cerimónia.
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