As escutas do processo judicial Portucale mataram a antiga relação política entre Paulo Portas e Luís Nobre Guedes. O CM sabe que o distanciamento entre os dois amigos e cúmplices na política começou a cavar-se quando Guedes foi confrontado, pelo Ministério Público, em 2006, com transcrições de escutas telefónicas do caso Portucale, em que Portas discute a sua sucessão no PP com Abel Pinheiro. Aí diz taxativamente a este que Guedes não pode ser o líder do CDS, optando por António Pires de Lima.
As conversas entre Portas e Abel Pinheiro começam por estar relacionadas com a questão do salário do líder. São três conversas, em dias diferentes, em que os dois discutem o vencimento – equiparado ao do primeiro-ministro – e em que é feita referência a um banco apontado como parceiro do CDS em vários projectos. Este banco, que não foi nomeado, estaria disponível para pagar uma parte do salário. Portas e Pinheiro tentavam ultrapassar a indecisão de Pires de Lima, que não tinha vontade de deixar a presidência da Unicer para se dedicar à política.
O CM sabe que numa das conversas Abel Pinheiro afirmou que, de qualquer modo, se Pires de Lima não avançasse poderia ser Telmo Correia ou Nobre Guedes. Sobre este último, porém, o líder do PP terá dito taxativamente que não podia ser. O distanciamento viria a agravar-se também por divergências políticas sobre a agenda política do CDS.
LÍDER DO CDS EM SILÊNCIO SOBRE O CASO
As divergências políticas entre Portas e Nobre Guedes nasceram no processo Portucale, mas foram--se agravando publicamente em vários episódios. Paulo Portas nunca quis comentar o caso, mas dirigentes que lhe são próximos admitem que as diferenças se agravaram no Conselho Nacional de há um ano, em que Guedes e Pires de Lima se posicionaram em barricadas diferentes sobre o rumo do CDS. Guedes queria que o partido centrasse o seu discurso na denúncia do estado da investigação criminal, mas Pires de Lima defendeu outra posição, com o apoio de Portas. Nesse momento, segundo a ‘entourage’ de Portas, Nobre Guedes não terá gostado de ver a preferência do líder por Pires de Lima, com quem mantinha uma antiga rivalidade sobre a influência no partido.
"O LUÍS NÃO PODE SER!"
Luís Nobre Guedes confirmou ao CM ter sido confrontado com as escutas do caso Portucale pelo magistrado Rosário Teixeira. Aí, Portas terá dito duas frases que definiriam a sua preferência na sucessão: "O António será um excelente presidente!" e "O Luís não pode ser!" O antigo ministro do Ambiente diz que as frases não o surpreenderam e nega que quisesse ser líder do partido. Na sua opinião, seria Telmo Correia, ex-ministro Turismo, quem teria razões para ficar zangado com Portas. Pires de Lima não avançou e Telmo acabou por ser candidato derrotado contra Ribeiro e Castro.
APONTAMENTOS
NOTÁVEIS
A instrução do Portucale, liderada pelo juiz Carlos Alexandre, vai ser um desfile de notáveis. Sócrates, Ricardo Salgado e Jorge Coelho são testemunhas.
SOBREIROS
Este caso versa sobre um despacho de três ex-ministros – Nobre Guedes, Costa Neves e Telmo Correia – que facilita a uma empresa do Grupo Espírito Santo o abate de sobreiros na herdade da Vargem Fresca e o avanço de uma exploração turística.
ACUSADOS
São dez os arguidos por crimes de tráfico de influências e falsificação de documentos.
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