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Investigador encontra características de Mussolini no Chega ou Vox

António Pinto recusa, no entanto, que lhe sigam as pisadas, pois "há diferenças bastante importantes".

23 de novembro de 2019 às 08:49

O investigador António Costa Pinto encontra semelhanças entre o líder político fascista italiano Benito Mussolini e os movimentos políticos populistas e de extrema-direita atuais, mas recusa que lhe sigam as pisadas, pois "há diferenças bastante importantes".

António Costa Pinto falou à agência Lusa a propósito da edição da autobiografia de Benito Mussolini, lançada em Portugal no final de outubro, que retrata "o início do regime político" do líder fascista italiano e que conta com o prefácio do professor do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Na ótica do investigador, a maior diferença entre Mussolini e os movimentos populistas contemporâneos prende-se com a conjuntura política que as nações atravessam, mas uma das semelhanças é a "busca pelos grupos sociais populares", em detrimento da burguesia e do capitalismo.

"É essa busca de um eleitorado, e de uma massa popular, que no fundo identifica o fascismo em relação a outros grupos políticos de direita radical do mesmo período", sustentou.

Segundo o investigador do ICS, "este livro é, sobretudo, a autorrepresentação de um líder que despreza a democracia e que justamente tenta legitimar o combate político antiliberal e antidemocrático".

"Sob esse ponto de vista, muitas das características de Mussolini podem ser emuladas", defendeu António Costa Pinto, notando que o antigo chefe de Governo italiano e líder do Partido Nacional Fascista é "uma personagem que muito rapidamente se afirma como um líder carismático, um líder com uma enorme capacidade discursiva", e que destaca valores como "a coragem física, a defesa da pátria, o nacionalismo exacerbado".

Porém, uma das diferenças, assinalou, é que "a grande maioria dos movimentos políticos que podem tentar hoje emular alguns dos princípios de Mussolini" deixam cair dois - "a violência política e o desprezo pelas eleições enquanto modo de legitimação de um partido".

Entre Mussolini e André Ventura, o professor universitário consegue encontrar "diferenças bastante importantes", nomeadamente que o deputado único do Chega "não exerce a sua atividade política num contexto de crise da democracia liberal", pelo que a "conjuntura é muito diferente" dos dias atuais para o início do século XX.

Apontando que "os líderes políticos adaptam-se", António Costa Pinto destaca "o elemento de proximidade" de Ventura, "sobretudo no agarrar de todos os temas políticos suscetíveis de iludir a escala direita-esquerda".

"Há inerente ao discurso populista características que são fundamentais e universais, sobretudo no desprezo pelas instituições representativas, mas em tudo o resto não há elementos de semelhança", explicou, assinalando que mesmo "apesar de ter entre os seus quadros elementos que provêm da direita radical", não é possível dizer que o Chega "tenha uma ideologia estruturada de tipo fascista".

Em relação ao partido de extrema-esquerda espanhol, o Vox, existe "um revivalismo neofranquista", mas "mais uma vez, as diferenças são importantes", como o facto de não ter "ações transgressivas", sublinhou o investigador, apontando que também o movimento italiano de Salvini "é de natureza diferente".

No futuro, "alguns destes partido poderão ser, eventualmente, absorvidos pela dinâmica democrática e aproximar-se mais do centro" ou, por outro lado, da "dinâmica de direita radical", estimou o investigador, notando que ainda se vivem tempos de incerteza.

Outra das razões para António Costa Pinto não prever um regresso dos regimes ditatoriais prende-se com o facto de não haver "países importantes" europeus com regimes autoritários, que possam constituir-se como "polos de difusão deste tipo de movimentos".

"O que é interessante no caso de Mussolini é, como é que um chefe político de um pequeno partido, numa conjuntura de crise, no fundo três anos depois, em 1922, está no poder", sendo que "é a partir do poder que ele vai começando a desmantelar o Estado liberal", considerou António Costa Pinto.

Já a "dimensão mais interessante desta autobiografia" é perceber como é que Mussolini define, "de forma evidentemente não coincidente com a História, o seu próprio papel e a sua própria ação".

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