José Maria Neves, primeiro-ministro de Cabo Verde, pede ao seu homólogo português, Durão Barroso, que equipare os imigrantes cabo-verdianos aos brasileiros, alvo do Estatuto de Igualdade de Direitos Civis e Políticos. Sublinha, no entanto, que não há mágoas e que o seu país não é uma ameaça para Portugal.
Correio da Manhã – Esta é a cooperação que esperava de Portugal?
José Maria das Neves – Sim. Em termos empresariais, há sectores estratégicos a funcionar muito bem, como acontece com as telecomunicações, os combustíveis, a banca... Há um ou outro problema, nomeadamente no domínio da água e da electricidade.
– Divergências sobre planos tarifários.
- Por exemplo. São interesses divergentes que temos de conciliar de forma a que as parcerias possam continuar. A nível intergovernamental, há também parcerias importantes, na saúde, na educação, na cultura. O desafio é, com isto, fazer mais e melhor.
– Onze milhões de euros não é uma verba limitada?
– Se conseguirmos pôr essa verba em prática, já será muito bom.
– O que fica a faltar, nesta visita?
– Vamos cobrir tudo o que é essencial no que diz respeito à cooperação. Depois, temos de trabalhar para atingir mais consensos sobre a nossa comunidade em Portugal.
– Ainda em relação à cooperação económica, não falta tentar melhorar a balança comercial, tão deficitária para Cabo Verde?
– As importações também são importantes para o crescimento de Cabo Verde. Mas há por onde melhorar, nomeadamente a nível da participação das pequenas e médias empresas.
– Daí a agência de investimento que vai ser criada.
– Vamos criar uma agência com o apoio de Portugal. Para promover o investimento externo em Cabo Verde e as exportações.
– O que é que Cabo Verde tem para oferecer aos investidores estrangeiros?
– Os transportes, por exemplo. É um sector por explorar. E há uma série de oportunidades de negócio no turismo, que pode crescer em várias ilhas – não só o turismo de sol e mar, mas também o turismo cultural, de natureza. Há muito espaço para o desenvolvimento de pequenas e médias empresas, de uma indústria ligeira voltada para a exportação.
– E o que é que Portugal pode fazer por Cabo Verde no âmbito da UE?
– Já temos uma intensa relação com a Europa, não só devido às nossas comunidades mas também à paridade da nossa moeda com o euro, à nossa cultura ocidental... Queremos agora trabalhar para obter uma parceria especial.
– Como região periférica?
– Como região periférica ou como Estado associado. E Portugal pode servir de ponte nesse diálogo.
– Cabo Verde está magoado com o Estatuto de Igualdade de Direitos Civis e Políticos (EIDCP) atribuído por Portugal aos imigrantes brasileiros – e não aos cabo-verdianos?
– Não há mágoas. Há o interesse de Cabo Verde em que os cabo-verdianos tenham o mesmo tratamento. Não somos ameaça para Portugal. Somos um pequeno país insular, com pouco mais de 500 mil habitantes, e, com o crescimento previsto, vamos transformar-nos rapidamente num espaço de imigração, não de emigração.
– Quantos emigrantes ilegais Cabo Verde tem em Portugal?
– Não consigo precisar, mas não é um número expressivo. E estamos a trabalhar para limitar a saída ilegal do país.
– A emigração ilegal é uma desvantagem em qualquer negociação com Portugal?
– Claro. E é uma debilidade que apenas podemos combater com um forte desenvolvimento destas ilhas, de forma a que não haja necessidade de os cabo-verdianos demandarem outras paragens.
– Durão Barroso vem elogiar o progresso cabo-verdiano e o papel desenvolvido por este país a nível diplomático. Trocava esse elogio pelo EIDCP para a comunidade cabo-verdiana em Portugal?
– Por que não ter as duas coisas? Penso que Cabo Verde é a prova do que um país de língua portuguesa pode fazer em África, e Portugal deve estar orgulhoso disso.
– Já se ouviu este argumento: Cabo Verde vai julgar Pepa, o suspeito do assassinato do agente Felisberto, enquanto o Brasil ainda não fez quase nada no que diz respeito a Fátima Felgueiras...
– Portugal pode contar com Cabo Verde como parceiro em qualquer área. E é importante que Cabo Verde também conte com Portugal.
– O carinho em torno de Sofia Barbosa, a cantora luso-cabo-verdiana da ‘Operação Triunfo’, é um exemplo dessa afectividade?
– Sem dúvida. É um excelente exemplo. Noutro âmbito, podíamos falar também na Cidade Velha [bairro da Cidade da Praia], que foi a primeira cidade construída por Portugal em África.
– O presidente Pedro Pires ter sido um dos sete líderes da África Ocidental recebidos por George W. Bush no Senegal é um bom indicador da simpatia internacional?
– Sem dúvida.
– Agora, Cabo Verde também quer criar uma força antiterrorista...
– Não temos razão para temer o terrorismo, mas todos temos de estar preparados.
– Que acordo é o da compra de navio-patrulha aos estaleiros de Viana do Castelo?
-- Não é compra. Estamos interessados em desenvolver parcerias para a protecção da nossa guarda costeira. Temos indicações de que podemos ser uma porta de entrada de estupefacientes na Europa.
”PETRÓLEO DE SÃO TOMÉ PARA AS PESSOAS”
– Como é que Cabo Verde olha para a situação em São Tomé?
– Estamos preocupados, pois temos uma comunidade cabo-verdiana muito expressiva em São Tomé. Mas queremos trabalhar no quadro da CPLP. A nossa ministra dos Negócios Estrangeiros já está em Portugal.
– Por que é que não há golpes de Estado em Cabo Verde?
– A democracia tem de religitimar-se no quotidiano e dar resposta aos problemas das pessoas. Não podemos realizar eleições e deixar os cidadãos com os mesmos problemas. Em Cabo Verde há uma intensa relação entre as pessoas e os governantes. Mas nem sempre é fácil gerir um país pobre.
– Aparentemente, no caso de São Tomé, já não tão pobre assim... Acredita que a perspectiva do petróleo está a motivar a cobiça do poder?
-- O petróleo raras vezes tem sido um bom augúrio em África. Até por uma questão de maturidade institucional, essencial para fazer reverter os lucros do petróleo para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Nome: José Maria Neves.
Idade: 43 anos.
Estado civil: divorciado, três filhos.
Formação: licenciado em Administração Pública pela Universidade Getúlio Vargas (Brasil).
Carreira Política: foi um membro activo da juventude do PAIGC e candidatou-se à presidência do PAICV em 1999 (contra Felizberto Vieira), chegando à chefia do Governo em 2001, com apenas 41 anos.
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