O período de maior sucesso político de Francisco Sá Carneiro coincide com a sua morada na Rua D. João V ao lado da editora Snu Abecassis. Quem o diz é Marcelo Rebelo de Sousa, uma das muitas personalidades assíduo do apartamento do casal. Que faleceu, de forma trágica, em 1980. A casa – um duplex – com 500 metros quadrados brutos vai ser vendida em leilão. As propostas terão de ser entregues até dia 6 de Novembro.
O apartamento não pertence à família Abecassis desde 1982 e já foi avaliado por imobiliárias em dois milhões de euros. São seis quartos no piso superior, além de um para pessoal doméstico, no primeiro piso, sem contar com duas cozinhas, uma despensa, uma lavandaria e duas salas.
Do acervo do casal, falecido na sequência da queda do Cessna onde viajavam, já não há vestígios, a não ser uma biblioteca encastrada que a última a proprietária da casa, de nacionalidade inglesa, manteve.
Para a história ficam as memórias de quem frequentou o apartamento do então primeiro-ministro e da sua companheira, Snu Abecassis, em jantares e reuniões que se prolongavam pela noite dentro.
Marcelo Rebelo de Sousa recorda um dos momentos em que trabalhou lado a lado com Sá Carneiro na obra “Um projecto de revisão constitucional”. Estávamos em 1978.
“Já era líder do PSD” quando foi viver com SNU Abecassis para o apartamento, recorda o professor de Direito Constitucional, apontando a ascensão a primeiro-ministro e a fundação da Aliança Democrática como outros dois momentos da vida de Sá Carneiro passados no sétimo andar do número 19 da Rua Dom João V.
Em Julho, Marcelo quis despedir-se da casa e conhecer, sobretudo, o segundo piso, onde estava o escritório usado por Sá Carneiro com o Palácio da Ajuda a ilustrar a vista.
O primeiro andar, onde está a sala de jantar, era usado para tertúlias políticas, mas não só. Snu, companheira de Sá Carneiro, lançou a Dom Quixote em Portugal. E era lá que dava jantares, com escritores estrangeiros.
Questionado pelo CM se gostaria de comprar a casa, o ex-líder do PSD responde: “Se eu tivesse dinheiro, não sei se gostaria de a comprar.”
Sá Carneiro, que viveu na York house parte do seu percurso político em Lisboa, reuniu com altas figuras políticas, como Mário Soares, na Rua D. João V, a partir do Verão de 1976.
A decisão de leiloar a casa acabou por ser tomada pelos herdeiros da última proprietária já falecida. Primeiro pretendiam fazê-lo, apenas, com o acervo de artes, onde se destaca um quadro de Picasso. Depois, juntou-se o leilão da casa a cargo de Jean Pierre Blanchon. Que prefere não apontar valores como base de licitação.
LAR DE FAMÍLIA SERVIU DE PRAÇA-FORTE
A vista sobre Lisboa ribeirinha do duplex do n.º19 da Rua D. João V pede meças ao panorama do antigo restaurante Varanda do Chanceler, em Alfama, onde Snu Abecassis, editora divorciada, e Francisco Sá Carneiro, líder do PSD com a família a residir no Porto se conheceram em 6 de Janeiro de 1976. Os dois locais foram também ambiente de muitas importantes conversas políticas nos agitados anos 70, mas três décadas volvidas é a casa da Snu Abecassis que ganha na história recente de Portugal. Sem um sedutor convite para uma conversa na intimidade familiar, Sá Carneiro não teria certamente convencido o director do centro de estudos do banco de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, a aceitar o convite para sobraçar a pasta das Finanças e tudo teria sido diferente do que hoje se vê.
A casa de Snu Abecassis, ou melhor, Ebbe Merete Seidenfaden, nascida na Dinamarca em Outubro de 1940, mãe de duas raparigas e um rapaz, foi até à chegada do fundador e líder histórico do PPD-PSD um lar de família, onde após a separação a editora das Publicações Dom Quixote reunia frequentemente amigos em tertúlias literárias.
A casa onde moraram Sá Carneiro e Snu Abecassis, entre 1976 e 1980, data da morte de ambos, tem quartos com cerca de 30 metros quadrados e uma vista sobre a cidade de Lisboa que vai do Castelo de São Jorge ao Palácio da Ajuda. É no n.º 19 da Rua Dom João V, onde, curiosamente, viveu Artur Esteves, da discoteca Trumps.
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