Nos últimos anos, após ter adoecido, Joaquim Pina Moura retirou-se da vida pública.
Joaquim Pina Moura, que morreu esta quinta-feira em Lisboa, aos 67 anos, foi um destacado militante comunista a quem chamaram "Cunhal dos pequeninos", foi dissidente do PCP, superministro do PS e gestor de grandes empresas.
Joaquim Augusto Nunes de Pina Moura nasceu em Loriga, concelho de Seia (distrito da Guarda), em 22 de fevereiro de 1952, entrou na política muito jovem e aos 19 anos foi candidato da oposição democrática às eleições de 1969 no Porto, onde viveu desde os 4 anos e estudou na Faculdade de Engenharia, curso que o 25 de Abril de 1974 interrompeu.
Licenciou-se em Economia e fez uma pós-graduação em Economia Monetária e Financeira, no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, onde foi assistente.
Aos 20 anos, como militante do PCP, a que aderiu em 1972, usou o mesmo pseudónimo -- "Duarte" - do líder histórico dos comunistas portugueses. Por isso, passou a ser chamado, durante anos, de "Cunhal dos pequeninos" e visto, por alguns militantes comunistas, como seu "delfim".
Mas o seu percurso político começou antes da Revolução dos Cravos, em 1974, passou pela militância na organização de juventude do PCP, que chegou a coordenar, e ascendendo ao Comité Central, juntamente com Zita Seabra, em 1976.
Nesse ano, após o período do Processo Revolucionário em Curso (PREC), Pina Moura foi um dos líderes da União de Estudantes Comunistas (UEC) e três anos depois trabalhou com Vítor Dias na Secção de Informação e Propaganda, de onde saiu em 1987 para a comissão de atividades económicas do PCP.
No ano seguinte, em 1988, votou contra a expulsão de Zita Seabra e começou aí a sua dissidência, com críticas à orientação estratégica do partido, embora ainda tenha sido eleito, nesse ano, para o Comité Central.
Em vários congressos, e na sua preparação, sucederam as divergências com Cunhal, dele e de críticos como Barros Moura, Raimundo Narciso ou José Luís Judas.
Em 1988, defendeu o voto secreto, a abertura do órgão oficial, Avante! à discussão interna e a apresentação de moções alternativas.
Numa reunião na sede do PCP, Cunhal responde-lhe que, se os 150 mil militantes escrevessem moções, não haveria papel que chegasse, lê-se num perfil intitulado "Pina Moura: O orquestrador-mor", publicado no jornal Público, em novembro de 1995.
Em 1990, insiste na proposta. Sem resultado. No congresso em que Carlos Carvalhas foi eleito secretário-geral, Pina Moura apoiou-o, mas faz uma intervenção crítica, questiona o leninismo.
"Sinto que é meu dever exprimir aqui a minha discordância", começou por dizer, depois do vocativo "camaradas". É apupado, mas, no fim, recebeu alguns aplausos.
A Lusa descreveu o sucedido desta forma: "Pina Moura, membro suplente do Comité Central, rejeitou a 'análise marxista-leninista', contestou o 'centralismo democrático' e opinou que o PCP tem de 'começar de novo'".
A rutura só aconteceu no ano seguinte, em 1991, quando o militante 130 do PCP atacou a liderança de Cunhal pelo apoio dos comunistas portugueses ao golpe de Estado contra Mikhail Gorbachev na URSS, o país elogiado pelo partido ao longo de décadas e que meses depois deixou de existir.
Saiu do partido, sem falar com Cunhal, em 03 de outubro de 1991, dia em o PSD ganhou a segunda maioria absoluta, entregando uma carta na sede da Soeiro Pereira Gomes, em Lisboa.
"Saí nesse dia, mas já tinha decidido abandonar cerca de dois meses antes, quando, ao arrepio do Comité Central, a Comissão Política entendeu apoiar publicamente o golpe -- que depois foi derrotado -- contra Mikhail Gorbachev. Aí percebi que não tinha mais nada a fazer dentro do Partido Comunista", recordou, numa entrevista ao Expresso, em fevereiro de 2000.
Em 1992, esteve na fundação da Plataforma de Esquerda com outros ex-comunistas, como Barros Moura, Raimundo Narciso, já de aproximação ao PS de António Guterres, afastando-se de dirigentes como Miguel Portas e Daniel Oliveira, mais tarde fundadores do Bloco de Esquerda.
Com a chegada de António Guterres à liderança do PS, tornou-se um dos "independentes" que ajuda ao lançamento dos Estados Gerais para uma Nova Maioria, que abriu o caminho à vitória dos socialistas nas legislativas de 1995.
Com o PS no Governo, Pina Moura, que viria a tornar-se militante naquele ano, é um dos "braços direitos" de Guterres, o que lhe vale a alcunha de "cardeal".
Foi Jorge Coelho, do chamado "núcleo duro" do guterrismo, quem leu um artigo no Avante!, em que surgia o título eclesiástico, comparando Guterres e Pina Moura com Luís XII e Richelieu.
A partir daí, o próprio líder do PS usava, por graça, esse cognome, ao contrário dos críticos e da oposição, que o usavam com ironia.
De secretário de Estado Adjunto de António Guterres, em 1995, passa, sucessivamente, pela pasta da Economia, sucedendo a Daniel Bessa e a Augusto Mateus. Em 1999, ganha novo cognome, o "superministro": junta as pastas da Economia e das Finanças, que concentra toda a política económica.
Com a queda de Guterres, em 2002, Pina Moura continua na Assembleia da República, onde chegara em 1995, e iniciou uma carreira ligado a grandes empresas.
Foi administrador da Galp e presidente da Iberdrola Portugal - em acumulação com o cargo de deputado, o que lhe valeu uma onda de críticas no partido e fora dele.
Foi em 2007 que deixou todos os seus cargos partidários para assumir um lugar na administração na Media Capital, dona da TVI, que acumulou com o de presidente da Iberdrola, que ocupou até 2013.
Em 2005, em resposta à pergunta de O Independente sobre como é que um comunista convicto se transforma em gestor do capitalismo internacional, Pina Moura respondeu: "Convivo muito bem com aquilo que fui e com aquilo que sou. Nunca serei prisioneiro de uma tirania mediática. Estou muito bem comigo próprio e isso é que conta".
Nos últimos anos, após ter adoecido, Joaquim Pina Moura retirou-se da vida pública, fazendo algumas estadias na zona de Loriga, sua terra natal.
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