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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Presidente do TC diz que órgão "não pode andar ao sabor das maiorias"

José João Abrantes considerou que "uma das grandes virtudes" deste órgão tem sido o equilíbrio na sua composição.

09 de abril de 2026 às 17:28

O presidente do Tribunal Constitucional (TC), José João Abrantes, considerou esta quinta-feira que "uma das grandes virtudes" deste órgão tem sido o equilíbrio na sua composição e defendeu que a instituição "não pode andar ao sabor das maiorias".

"Uma das grandes virtudes do TC é aquele equilíbrio e a exigência de que haja um mínimo de metade de magistrados de carreira", afirmou o juiz conselheiro José João Abrantes, durante uma mesa redonda realizada em Évora.

O presidente do TC falava na sessão com o tema "Constituição da República Portuguesa: passado, presente e futuro", que integrou o Colóquio Comemorativo do Cinquentenário da Constituição, organizado pelo Tribunal da Relação de Évora (TRE).

Assinalando que se têm "ouvido coisas inacreditáveis", o presidente do TC aludiu a um "discurso permanentemente" que consiste na ideia de que "o tribunal não tem legitimidade porque está a governar contra a maioria parlamentar".

"O tribunal não é legislador negativo e muito menos legislador positivo, mas existe para garantir a Constituição, o Estado de Direito Democrático e os Direitos, Liberdades e Garantias de todos os cidadãos, nem que seja só um", referiu.

"E, nesse sentido, não pode andar ao sabor das maiorias", prosseguiu.

Num cenário hipotético, o juiz conselheiro José João Abrantes disse que um governo, mesmo com uma maioria parlamentar, "não pode", se assim quiser, "restaurar a pena de morte, a prisão perpétua ou acabar com a garantia da segurança do emprego", porque "isso viola os artigos da Constituição, que são bem claros".

"É para isso que serve o Tribunal Constitucional, para garantir que não pode", sublinhou.

Na sua intervenção, o presidente do TC defendeu que "não há em Portugal um problema constitucional" nem com a Constituição e os que são falados "são hoje em dia inventados".

"Não é preciso rever a Constituição e, muito menos, é preciso substituí-la por outra. Temos uma Constituição de que nos devemos orgulhar, é uma das mais progressistas do mundo, que consagra os Direitos, Liberdades e Garantias numa grande extensão, como os direitos sociais, económicos e culturais", frisou.

O juiz conselheiro José João Abrantes admitiu, ainda assim, a necessidade de se "tocar num ou noutro ponto cirúrgico" da Lei Fundamental do país, como em questões sanitárias, levantadas aquando da pandemia, dos metadados ou para consagrar a tutela penal dos animais de estimação.

"Mas uma coisa é alargar o consenso constitucional, outra coisa é afunilá-lo e diminuí-lo e tudo o que seja afunilá-lo e diminuí-lo, acho que é contraproducente e é, no fundo, contra a Constituição", acrescentou.

A Constituição da República Portuguesa foi aprovada a 02 de abril de 1976, após cerca de dez meses de trabalhos da Assembleia Constituinte, num período marcado por forte instabilidade política e social no pós-25 de Abril.

Desde então, o texto constitucional foi alvo de sete revisões, a última em 2005, não sendo alterado há mais de duas décadas, apesar de várias tentativas de revisão que não chegaram a ser concluídas nos últimos anos.

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