O modelo da chamada ‘Colónia Penal do Tarrafal’, em Cabo Verde, onde a 29 de Outubro de 1936, faz hoje 70 anos, chegaram os primeiros 152 presos dos 340 que por lá passaram, era igual aos dos campos de concentração nazis, onde Hitler promoveu o holocausto. Um dos desterrados, Edmundo Pedro, de 87 anos, que integrava o grupo ao lado de seu pai, lembrou ao CM a precariedade das instalações, em tendas de lona, a incomunicabilidade com o exterior, as barreiras de arame farpado e as próprias características do local.
“Era a zona mais inóspita, seca e quente, da ilha de Santiago, em Cabo Verde”, salienta Edmundo Pedro que lá passou nove anos e escapou à morte por pouco. Foi recambiado para Lisboa na Primavera de 1945, para responder em tribunal, e chegou tuberculoso ao continente, mas conseguiu melhorar nos três meses que passou na cadeia do Aljube à espera de julgamento.
Setenta anos depois, ele é um dos cinco sobreviventes ao Tarrafal, onde sofreram torturas mais de três centenas de resistentes à ditadura fascista, nomeadamente comunistas e anarco-sindicalistas, e gostava que a efeméride fosse assinalada de forma alargada e pedagógica. Não está, porém, disponível para dar cobertura a actos como o que hoje é promovido junto ao mausoléu das vítimas, no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses que aponta como uma organização do PCP. Edmundo Pedro foi convidado, mas, como lhe disseram que não poderia intervir, não estará presente. E gaba a sua consciência tranquila de sempre ter lutado pela liberdade, arriscando a própria vida e sem esmorecimento, apesar de tudo o que sofreu no ‘campo da morte lenta’. Por sua vontade, o Tarrafal era uma lição de história para todos os portugueses.
MÉDICO PARA "PASSAR ÓBITOS"
O número de 32 presos mortos no Campo do Tarrafal, entre 1936 e 1948, desmente a marca ‘paternalista’ dada muitas vezes à ditadura de Salazar. Com a escolha do local de desterro, na pior zona da ilha de Santiago, tentou-se de facto levar à morte os mais aguerridos resistentes ao regime.
Directores do campo como Manuel dos Reis, João Silva e Henrique Seixas admitiam que “quem vem para o Tarrafal vem para morrer” e ao médico Esmeraldo Pais Prata é atribuída a frase “não estou aqui para curar doentes, mas para passar certidões de óbito.”
A historiografia sobre o Tarrafal é, porém, limitada, sendo a maioria dos trabalhos ligada a autores que parecem querer fazer sobretudo a exaltação do papel do PCP na resistência à ditadura.
CABO VERDE AVANÇA MUSEU
O Tarrafal deixou de ser ‘campo de concentração’ a 26 de Janeiro de 1954, sendo o último prisioneiro sair Francisco Miguel, dirigente já falecido do PCP. Contudo, com a luta pela independência de Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e do próprio arquipélago de Cabo Verde, a ditadura de Salazar voltou a utilizar o campo para deter elementos dos movimentos de libertação. Um dos mais famosos que por lá passou foi o escritor Luandino Vieira que, por ser premiado em Lisboa pela Associação Portuguesa de Escritores, levou o regime a selar esta organização cultural.
O ministério da Cultura de Cabo Verde tem um projecto de museu para o local deixado até agora ao abandono e assinala hoje os 70 anos de abertura do campo com uma cerimónia e uma exposição, actos a que deverá assistir o sobrevivente Sérgio Vilarigues, de 91 anos. De resto, o 29 de Outubro é em Cabo Verde o Dia da Resitência Antifascista.
"SENTI SEMPRE MAIS RESPONSABILIDADE" (Edmundo Pedro, Ex-PCP e actual PS)
“Os nove anos que sofri no campo de concentração do Tarrafal nunca me fizeram ter medo de voltar a ser preso. Nunca desisti de lutar pela liberdade e de arriscar a vida nas campanhas da oposição e em revoltas. Pelo contrário, senti sempre ter ainda mais responsabilidade na luta pela liberdade, por conhecer pessoalmente a repressão e com isso ter uma consciência maior do que a maioria dos portugueses mantidos na ignorância. E fui sempre optimista. Na viagem para o Tarrafal, até pensei que estaria lá pouco tempo porque a Guerra Civil de Espanha parecia correr bem aos republicanos e a sua vitória significaria o fim do salazarismo.”
"NÃO NOS MATARAM TODOS NO TARRAFAL" (Sérgio Vilarigues, Dirigente do PCP)
“Estarei em Cabo Verde, e talvez mesmo no antigo Campo do Tarrafal, neste domingo em que se completam 70 anos sobre a chegada do primeiro grupo de presos, para lá levados por lutarem contra a ditadura fascista na greve geral de 18 de Janeiro de 1934 e na revolta dos marinheiros de 8 de Setembro de 1936. Quando chegámos ao Tarrafal e, ao contrário do que diziam, não havia condições nenhumas. Só tendas de lona e arame farpado à volta. Era um campo de morte. Hoje, o que mais gostaria de afirmar é que não não nos mataram todos e muitos ainda vivem e viverão para continuar a lutar pelas liberdades, pela democracia e pela paz.“
"SENTI UM CHOQUE AO VER O DIRECTOR" (Joaquim Teixeira, Marinheiro de 1936)
“Estive oito anos preso no Tarrafal e vim de lá transferido por doença. Fui para lá no primeiro grupo, por ter sido preso na revolta dos marinheiros de 8 de Setembro de 1936, mas a verdade é que não estava por dentro de nada. Eu tinha mudado para o ‘Bartolomeu Dias ‘ apenas três ou quatro dias antes, depois de ter lá ido pedir a um oficial. Lembro-me da viagem no ‘Luanda’ que era um barco com uma estrutura muito forte e também de um capitão que lá estava chamado Olegário. Muitos anos depois, fui com uma minha mulher numa excursão a Alcobaça e senti um choque quando o vi, mas nunca mais soube nada dele.
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