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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Transparência Internacional contesta Governo sobre avaliação de políticas anticorrupção

TIP considera que nova Estratégia Nacional Anticorrupção já deveria estar em execução.

12 de fevereiro de 2026 às 14:13

A Transparência Internacional Portugal (TIP) contestou na quarta-feira as afirmações do Ministério da Justiça sobre avaliação das políticas anticorrupção em Portugal, e critica a ausência de uma nova Estratégia Nacional Anticorrupção (ENAC), que já deveria estar em execução.

Em comunicado, a propósito da reação do Ministério da Justiça (MJ) aos resultados nacionais o Índice de Perceção de Corrupção de 2025, a TIP rejeita as afirmações de que a Agenda Anticorrupção, uma das medidas bandeira do executivo, contém já no seu relatório técnico uma avaliação da ENAC 2020-2024.

"Da leitura integral desse relatório não resulta qualquer evidência (prova) de uma avaliação estruturada, metodologicamente identificável, dos resultados da ENAC 2020-2024. O que o relatório descreve é, essencialmente, um processo de diálogo político e institucional --- relevante e desejável numa democracia --- envolvendo partidos, entidades públicas e organizações da sociedade civil. Esse exercício de auscultação, ainda que meritório, não se confunde com uma avaliação de impacto", afirmou a organização.

Segundo a TIP, para que o MJ pudesse falar de avaliação das políticas anticorrupção, teria que haver "identificação clara de objetivos e metas quantificáveis da estratégia anterior, indicadores de execução e de resultado; análise comparativa entre metas previstas e resultados alcançados; identificação de constrangimentos, falhas de implementação e boas práticas; e conclusões técnicas suscetíveis de fundamentar opções políticas futuras".

A TIP defendeu que "nada disso é explicitado no relatório citado pelo Governo como fundamento da alegada avaliação".

Recordando o compromisso público para a elaboração de uma nova ENAC para o período 2025-2028, constante da própria Agenda Anticorrupção apresentada pelo MJ, a TIP lamentou que até agora não seja conhecida qualquer proposta, calendário ou processo para concretização.

"A ausência dessa nova estratégia --- já em pleno período que deveria abranger --- levanta dúvidas quanto ao cumprimento dos compromissos assumidos e quanto à coerência entre o discurso político e a ação governativa", defende a TIP.

Afirmando que o combate à corrupção "exige rigor, transparência e coerência estratégica ao longo do tempo", o organismo diz também que os indicadores internacionais "continuam a colocar desafios" à perceção da corrupção em Portugal, pelo que considera essencial que o Governo torne pública a "avaliação detalhada" da ENAC 2020-2024, esclareça qual o calendário de aprovação da próxima estratégia, garanta participação e transparência nas futuras medidas, assim como compromissos concretos, mensuráveis e escrutináveis.

"Num domínio tão sensível para a qualidade da nossa democracia, importa assegurar que os compromissos assumidos se traduzem em instrumentos concretos, atempadamente definidos e publicamente escrutináveis", afirma a TIP.

Em reação ao Índice de Perceção da Corrupção 2025 divulgado esta semana o MJ que a descida de Portugal no 'ranking' ainda não reflete as reformas em curso e rejeita que a ENAC 2020-2024 não tenha sido avaliada.

O Índice de Perceção da Corrupção relativo a 2025, um indicador anual da Transparência Internacional que avalia a perceção da corrupção no setor público em mais de 180 países, aponta uma descida de Portugal, que cai para a 46.ª posição no 'ranking', com 56 pontos, o pior registo de sempre do país, ainda que represente apenas menos um ponto na classificação obtida no ano anterior.

Numa análise aos resultados nacionais no índice, o presidente da direção da TIP, José Fontão, apontou uma correlação entre o aumento da perceção da corrupção com o crescimento de discursos populistas que atacam as instituições, em linha com o que acontece noutros países europeus com os quais Portugal se compara.

Questionou "o que vai ser feito para evitar isto", tendo em conta o impacto que estes níveis de perceção têm na vida das pessoas, no investimento, na perceção da Justiça e noutros indicadores de desenvolvimento.

Ao poder político pediu consequências, nomeadamente o reforço das instituições, como o Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC), a avaliação de políticas e legislação e o fim de "medidas avulsas", que devem ser substituídas por uma "estratégia de longo prazo", algo que depende apenas de "vontade política".

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