Polícia Judiciária efetuou, esta terça-feira, 13 detenções durante a operação "Águas Turvas" e as buscas realizadas à Águas de Gaia.
Os vereadores do Partido Socialista na Câmara de Gaia exigiram "medidas urgentes", entre elas uma auditoria financeira e a convocação de reunião extraordinária de executivo, após a operação e buscas, esta terça-feira, realizadas nas Águas de Gaia.
Em comunicado, a vereação socialista exige "medidas urgentes", como uma "auditoria financeira independente à gestão desta empresa municipal nos últimos 15 anos", anunciando ainda a intenção de requerer a realização de reunião extraordinária do executivo municipal.
"O pedido surge na sequência das diligências efetuadas, esta terça-feira, pelas autoridades e da reação de Luís Filipe Menezes [presidente do município], que os vereadores acusam de procurar descartar-se de responsabilidades e de fazer aproveitamento político com informações que, alegam, não correspondem às que têm vindo a conhecimento público", pode ler-se na nota enviada às redações.
Segundo o PS, a auditoria contemplaria, assim, o período entre 2009 e a atualidade, que abarca o final da primeira passagem do social-democrata Luís Filipe Menezes pela autarquia e os 12 anos do socialista Eduardo Vítor Rodrigues, considerando os socialistas que as buscas abrangem "vários anos de gestão da empresa, incluindo o atual mandato autárquico".
Para os socialistas, só assim se podem "esclarecer os gaienses sobre a gestão desta empresa municipal", e apontam à contratação de Poças Martins "por 14 mil euros por mês, já no atual mandato, para apoiar a administração das Águas de Gaia", que temem que "em nada tenha contribuído para o combate à corrupção".
A Polícia Judiciária (PJ) efetuou, esta terça-feira, 13 detenções durante a operação "Águas Turvas" e as buscas realizadas à Águas de Gaia, incluindo "altos quadros" desta empresa municipal e empresários, num alegado esquema de corrupção e branqueamento, envolvendo oito milhões de euros.
"A investigação, em curso há cerca de 17 meses, incide sobre um amplo esquema organizado de criminalidade económico-financeira, desenvolvido através da conjugação de esforços entre empresários do setor privado e funcionários da Empresa Municipal Águas de Gaia (ADGAIA), com poderes decisórios relevantes no âmbito da contratação pública e sua respetiva execução", avança esta força de investigação criminal.
Fonte judicial adiantou à Lusa que os detidos são sete funcionários da ADGAIA, três dos quais com "cargos de chefia, de direção e de coordenação e com poder decisório", um ex-funcionário desta empresa municipal que agora é empresário, e mais cinco empresários ligados à construção civil e à venda de materiais.
Segundo a mesma fonte, em causa está um presumível "sistema organizado e enraizado de contratação pública, em que os arguidos funcionários controlavam todo o processo do início ao fim", em benefício dos empresários arguidos, "vendendo-se" a troco de contrapartidas dadas pelos privados, desde financeiras, viagens, almoços ou a realização de obras nas suas casas.
Sobre as diligências da PJ nas Águas de Gaia, a autarquia divulgou uma declaração em vídeo nas redes sociais Facebook e Instagram, no qual o presidente, Luís Filipe Menezes (PSD/CDS/IL), ladeado pelos membros do seu executivo, diz estarem "felizes com isto".
"Ninguém é culpado antes de ser devidamente investigado e julgado. Contudo, já existem indícios fortíssimos que a Águas de Gaia era um antro de ilegalidades, se não de corrupção, como havia também focos de corrupção noutras empresas municipais (...). Queremos que tudo seja investigado", afirma o autarca, referindo que os factos em causa são anteriores ao seu mandato, pelo que a oposição PS, partido do ex-presidente do município, Eduardo Vítor Rodrigues, deve "assumir as suas responsabilidades".
Pouco depois, e também na rede social Facebook, Vítor Rodrigues escreveu que as buscas "não envolvem políticos municipais de nenhum mandato" e que "nunca houve reporte de indícios do que se comenta".
"Alegadamente, envolvem comportamentos de técnicos que já o eram antes de eu lá chegar e que continuaram a sê-lo depois de eu sair. As eventuais tentações da vida pública só podem ser contidas pela verdade e pela responsabilidade. E, muitas vezes, pagam os políticos pelo que os técnicos e dirigentes fazem", assinala.
Os detidos vão ser presentes na quarta-feira a primeiro interrogatório judicial no Tribunal de Instrução Criminal do Porto, para aplicação de medidas de coação.
O inquérito é titulado pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) Regional do Porto.
Em setembro de 2025, o então presidente do Conselho de Administração da ADGAIA, Miguel Lemos Rodrigues, que já se encontrava suspensão de funções, foi acusado pelo Ministério Público (MP) de vários crimes económicos, incluindo de corrupção, por alegada viciação das regras da contratação pública.
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