Homicida do very-light caçado na Luz
Matou Rui Mendes com no Jamor em 1996 e era agora procurado para cumprir nova pena por usar tocha.
É a terceira vez que Hugo Inácio, de 43 anos, pisa o chão de uma cadeia. No sábado, pelas 16h00, numa altura em que se preparava para dar entrada numa das bancadas do Estádio da Luz, em Lisboa, foi abordado pelos spotters da PSP, que tinham nas mãos um mandado de detenção, datado do início de janeiro. Nele constava que Hugo Inácio, que em 1996 matou com um very-light um adepto do Sporting no Jamor, tinha de ser levado para a cadeia para cumprir três anos.
Segundo o CM apurou, Hugo Inácio ficou surpreendido com a voz de detenção, mas não ofereceu resistência - disse apenas que não tinha recebido qualquer notificação do tribunal.
Quando sair da cadeia, Inácio fica ainda proibido de entrar em recintos desportivos durante sete anos.
A decisão é de meados do ano passado do Tribunal da Relação de Lisboa, mas como ainda não tinha transitado em julgado, Hugo Inácio estava em liberdade. Tanto que, no sábado, ia assistir ao encontro entre o Benfica e o Chaves, integrado na claque dos No Name Boys.
Esta pena deve-se a factos ocorridos a 19 de novembro de 2016, dia de Benfica-Marítimo, na zona onde membros da claque se concentraram e onde deflagrou uma tocha. Hugo Inácio foi apanhado pela videovigilância e detido pela PSP no exterior. Estava na posse de outra tocha. Um mês depois foi condenado a três anos de cadeia pelo Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa. Recorreu, mas não evitou a prisão. A pena foi confirmada por juízes desembargadores.
O passado de Hugo Inácio como adepto violento não permitiu atenuantes. Em 1996, no Estádio do Jamor, disparou um very-light que matou o sportinguista Rui Mendes na bancada oposta - foi condenado dois anos mais tarde a quatro anos de prisão por homicídio negligente grosseiro. Saiu numa precária em 2000, fugiu e foi capturado apenas onze anos depois na casa da mãe.
Deixou a cadeia em 2012 mas em novembro desse ano envolveu-se numa rixa no Estádio da Luz, num encontro entre o Benfica e o Spartak Moscovo. Acabou condenado a 18 meses de prisão e proibido de entrar em recintos desportivos durante dois anos por agressões e injúrias a um polícia.
PORMENORES
Estava a viver com a mãe
Hugo Inácio vivia, antes de regressar à cadeia, com a mãe, o padrasto e um sobrinho. Trabalhava como ajudante de montador de pladur, recebendo por dia cerca de 30 euros. Tem apenas o 7º ano de escolaridade.
Juízes da Relação
Os juízes do Tribunal da Relação de Lisboa foram claros: "Hugo Inácio apenas não praticou crimes relacionados com eventos desportivos enquanto esteve em estabelecimento prisional a cumprir pena de prisão".
Furtos, roubos e um homicídio no cadastro
Hugo Inácio foi condenado cinco vezes por furto, a primeira em 1994. Seguiram-se mais duas sentenças por roubo e pelo homicídio no Jamor.
Recorreu por achar "pena exagerada"
No recurso para a Relação, Hugo Inácio afirmou que a pena de três anos "é exagerada, nunca devia ser superior a um ano e devia ser suspensa".
Adeptos violentos deixados à solta
O professor universitário Rui Pereira explicou ao CM que não há uma uniformização do Código Penal, da Lei das Armas e da Lei da Violência Desportiva. "Apenas a última permite que os adeptos violentos possam ser condenados a uma pena acessória de se apresentarem na esquadra à hora dos jogos", disse.
No Name Boys não têm registo
Ao contrário das claques dos rivais, o Benfica nunca reconheceu os No Name Boys (nem os Diabos Vermelhos) como uma claque oficial. A diferença é a obrigatoriedade do registo dos membros.
Spotters: a polícia dos adeptos
Os spotters da PSP têm uma missão específica junto das emoções fortes dos adeptos. A eles cabe-lhes, discretamente, acalmar os ânimos nos jogos e garantir a segurança durante todos os eventos desportivos.
Monitorização é tema classificado
A PSP não divulga quantos adeptos tem sob monitorização, justificando com procedimentos operacionais e com matéria classificada, pelo que não deve ser difundida para entidades externas.
Tochas e pirotecnia ainda sem controlo
A lei proíbe a entrada de qualquer "material produtor de fogo de artifício, quaisquer outros engenhos pirotécnicos ou produtores de efeitos análogos" em recintos desportivos. Mas a realidade é totalmente diferente. Em quase todos os jogos das principais equipas portuguesas há tochas, potes de fumo, petardos ou very-lights, mesmo com o controlo apertado de polícias e seguranças dos estádios. Fontes policiais adiantam ao CM que há dois fatores que contribuem para esta realidade: o tamanho reduzido dos engenhos pirotécnicos e o acesso privilegiado que as claques têm horas antes dos jogos começarem.
De acordo com os últimos dados divulgados pela PSP, em abril do ano passado, havia ‘apenas’ 21 adeptos proibidos de entrar em recintos desportivos, embora nos últimos cinco anos tenha havido mais de 400 detenções só em jogos de futebol das competições profissionais. Quase todas ocorreram em jogos da Primeira Liga e deveram-se a agressões a agentes policiais e à posse de artefactos pirotécnicos.
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