Administradores de empresa que negociou navio Atlântida ouvidos em tribunal
Em causa está o negócio com o navio Atlântida, em 2014. A Mystic Cruises adquiriu-o aos estaleiros de Viana do Castelo por 8,5 milhões de euros e vendeu-o por mais de 11 milhões.
Pedro Rocha, administrador da Mystic Cruises, de Mario Ferreira, afirmou esta quinta-feira em tribunal que “receber a informação de que o navio Atlântida não era adequado [para cruzeiros internacionais no rio Amazonas] foi terrível”. Seguiu-se o negócio: “Se ele não dava para o projeto, procurou-se outra solução, que foi vender e a venda ocorreu no primeiro trimestre de 2015”, referiu o economista, que era responsável pela área financeira da empresa à data.
O agora administrador acrescentou que, inicialmente, foi informado por Mário Ferreira de que a empresa estava no concurso para aquisição do navio. “Mário Ferreira era o motor dos projetos da empresa”, afirmou. Aquando da concretização da compra pela Mystic, “a liquidez era muito escassa, por isso houve apoio de um banco português [Carregosa] e negociávamos com outro banco um apoio mais de longo prazo”. Mais tarde, já após a venda do navio à ITW, também ligada a Mário Ferreira, “houve custos a suportar pela Mystic por razões técnicas”. “Na altura não achei o procedimento mais adequado porque, sendo duas empresas relacionadas, têm de ser independentes, mas percebi a urgência”, referiu.
Também ouvido esta quinta-feira foi Hugo Bastos Rodrigues, igualmente administrador da Mystic Cruises e à época diretor no grupo Douro Azul, que foi visitar à base naval do Alfeite o navio colocado à venda pelo Estado. “Não estava habilitado a navegar em lado nenhum porque não estava concluída a certificação. Mas o potencial [para o projeto no Amazonas] estava lá”, afirmou. Já após a aquisição, é que foram realizados “estudos robustos”, que revelaram um grande custo de adaptação: “Percebemos que o valor da transformação era muito mais do que tínhamos sonhado. A expectativa inicial era gastar cinco a seis milhões e afinal seria várias dezenas de milhões. Não passámos dos estudos”, esclareceu a testemunha, indicando que na altura desconhecia a ITW.
Disse ainda reconhecer a urgência da venda do Atlântida pelo Estado Português: “Acredito que tinha ali um elefante branco no meio da sala e cada dia que passava tinha custos a somar e maior desvalorização”.
Mário Ferreira está a ser julgado no Tribunal de S. João Novo, no Porto. Em causa está o negócio com o navio Atlântida, em 2014. A Mystic Cruises adquiriu-o aos estaleiros de Viana do Castelo por 8,5 milhões de euros e vendeu-o por mais de 11 milhões a uma empresa sedada em Malta e também do universo empresarial do empresário. Meses depois, o navio seria vendido por 17 milhões a uma empresa norueguesa. A acusação refere que uma das empresas era de fachada e foi criada em Malta para permitir a fuga aos impostos em Portugal.
Mario Ferreira alegou no início do julgamento que está inocente, assegurou que o negócio foi sujeito a um relatório de transparência e que pagou todos os impostos devidos. Devolveu já um valor em falta. O Ministério Público reclama 110 mil euros de juros compensatórios. As suspeitas de corrupção e participação económica em negócio caíram entretanto.
O julgamento prossegue a 14 de maio.
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