Barricado cega GNR com tiro na cara

Um militar do Núcleo de Investigação Criminal (NIC) da GNR de Vila Franca de Xira foi ontem atingido a tiro de caçadeira pelo proprietário de uma casa, em Adega, Sobral de Monte Agraço, onde executava uma busca.

17 de janeiro de 2006 às 00:00
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Depois de atingir gravemente o militar no lado esquerdo da face – cegando-o e deixando-o em risco de vida –, o agressor barricou-se na residência. E, às 00h30 de hoje permanecia trancado, sem falar aos negociadores da GNR e da PJ.

O soldado João Ferreira, de 26 anos, chegou à casa de Manuel Cardoso, na aldeia da Adega, acompanhado por cinco colegas do NIC. Eram 12h00. Nas mãos traziam uma ordem do tribunal, para entrar e revistar a casa. “O filho do proprietário foi detido ontem [anteontem] pelo NIC, sob suspeitas de furtos e roubos de viaturas e a residências”, disse ao CM o tenente-coronel Cardoso Pereira, da Brigada n.º 2, da GNR. O objectivo da busca era encontrar material alegadamente roubado por André Cardoso, 20 anos, e que se suspeita ter sido escondido naquela residência.

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Quando Manuel Cardoso, de cerca de 50 anos, abriu a porta, ainda falou durante algum tempo com os militares. “Mas, de repente, pegou numa caçadeira e disparou contra os guardas”, disse o tenente-coronel.

O soldado João Ferreira foi atingido com gravidade no lado esquerdo da face. Os bombeiros do Sobral de Monte Agraço transportaram-no para o Hospital de Torres Vedras. E, desta unidade hospitalar, foi transferido para São José e submetido a uma intervenção cirúrgica. O soldado Ferreira, pai de uma menina de 21 dias, ficou cego da vista esquerda e arrisca lesões neurológicas irreversíveis. Perto da meia-noite encontrava-se em coma induzido. As próximas horas são decisivas.

Na aldeia de Adega foi montado um forte dispositivo de segurança com militares do Grupo de Loures, da Companhia de Operações Especiais do Regimento de Infantaria e negociadores da GNR e PJ (ver caixa). Os moradores foram impedidos de sair e as estradas que ligam a aldeia ao Sobral bloqueadas.

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Manuel Cardoso continuava barricado às 00h30 de hoje (doze horas após o tiroteio). A meio da tarde desligou o telefone fixo e o telemóvel, mantendo-se em silêncio. Não deu uma única resposta aos negociadores, nem fez qualquer exigência.

PENA POR HOMICÍDIO

Na aldeia da Adega, Manuel Cardoso é conhecido por ‘Zaca Malandro’. Os moradores recordam que, ainda antes do 25 de Abril de 1974, Manuel cumpriu pena pelo homicídio do próprio tio. Actualmente, está separado e vive com o filho - detido anteontem por suspeitas de furtos e roubos.

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ARMAS EM CASA

Os militares da GNR que ontem se dirigiram a casa de Manuel Cardoso levavam indicações do seu filho, André, de que não havia problemas porque “ele não tinha armas em casa”. Os moradores dizem o contrário. “Ele tem um arsenal em casa. Por isso é que não deixa que lá entrem”, disse Manuel Maria, funcionário da câmara.

POLÍCIAS COM 42 MORTES EM DEZ ANOS

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Nos últimos dez anos, 25 militares da GNR e 14 agentes da PSP foram mortos em serviço. A PJ também registou três mortes em serviço, de inspectores, só na última década. O caso mais recente de polícias feridos a tiro tinha ocorrido a semana passada em Estarreja, com dois militares da GNR. Isto numa altura em que as polícias ainda tinham bem presente a morte do chefe Sérgio Martins, da PSP de Lagos, a 11 de Dezembro. Mas as autoridades já estavam de luto, com três mortes que ocorreram no primeiro trimestre de 2004: em Fevereiro morreu o agente Ireneu Dinis, baleado no bairro Cova da Moura; e no mês seguinte, às portas do bairro Santa Filomena, foram assassinados os agentes António Abrantes e Paulo Alves. Na GNR ainda se chora a morte de três militares mortos em serviço em 2004: dois em Freixo de Numão e outro no Cartaxo.

ATIRADOR NÃO FALA COM AUTORIDADES

Os negociadores da GNR e PJ – ‘furaram’ a greve às horas extras– tentavam ontem à noite convencer Manuel Cardoso a entregar-se. Pelas 21h00, filha e genro do barricado chegaram e serviram de intermediários. “Não há hora prevista para mudar a estratégia. O importante é conseguir comunicar com ele e fazê-lo entender que é melhor entregar-se”, disse o tenente-coronel Pereira. O facto de Manuel Cardoso se encontrar sozinho e não ter nenhum refém consigo permite aos autoridades não ter pressa numa intervenção. Mas, às 24h00, o mais importante – manter contacto com o barricado – estava ainda por conseguir.

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