Bebedeira era AVC
Não sei o que faça à minha vida”, desabafa Elizabete Souto, mulher do taxista da Autocope, que, na noite 18 de Outubro, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) enquanto conduzia, mas cujos sinais foram confundidos pela BT por embriaguez. Joaquim Manuel Albuquerque, de 47 anos, pai de uma filha menor e o único sustento familiar, regressava a Lisboa, após um serviço na Costa de Caparica.
O talão da portagem prova que atravessou a Ponte 25 de Abril à 00h11. Passados onze minutos, afirma fonte da LusoPonte/Gestiponte, “localizámos o veículo que estava parado e atravessado na faixa de rodagem com o condutor no interior”. Foi solicitado a Joaquim que desviasse o táxi da estrada, “mas não obtivemos resposta”.
Pelo perigo que podia provocar, “pedimos que destravasse o carro para podermos tirar a viatura do meio da via”. Joaquim acedeu. “A fala não era perceptível, mas não nos pareceu embriagado.” “Telefonámos à PSP que é quem tem a jurisdição da área.” Por impossibilidade da PSP “apelámos à BT, que rapidamente apareceu”. Para a Lusoponte/Gestiponte – que coordena a resolução de incidentes e presta apoio ao utentes da Ponte 25 de Abril – Joaquim não mostrava indícios de embriaguez e, garante a fonte, “foi pelos próprios pés que entrou na viatura da BT”.
O capitão Gomes, da BT, tem opinião contrária. “A pessoa mostrava fortes sinais de descoordenação motora, tinha fala pastosa e grave dificuldade em ficar de pé.” Uma postura “muito frequente em condutores embriagados”. Na impossibilidade de no local ser feito o teste de álcool “foi transportado na nossa viatura para o posto fixo da Lusoponte/Gestiponte”.
O comportamento de Joaquim, assegura o capitão, mantinha-se: “Não conseguia falar e cambaleava.” O teste de alcoolemia nunca chegou a ser feito “porque o senhor não se encontrava em condições”. “Decidimos telefonar à Autocope para alertar para o sucedido.”
À 01h12 a telefonista da Autocope recebeu o telefonema que não deixava dúvida quanto ao estado do associado. “A BT disse que ele estava bêbado, não se tinha nas pernas e não se percebia o que dizia”, diz Armando Santos, director da Autocope.
A funcionária entrou em contacto com António Mendes, sócio de Joaquim, que ligou à BT. “Disseram-me que estava com uma grande bebedeira.” Por saber que o colega não conduziria após beber, considerou o caso bizarro: “Disse-lhes que era impossível. E alertei-os: tenham cuidado que deve ser outra coisa.”
Em resultado, a BT chamou, à 01h25, os Bombeiros de Almada. Faltava um minuto para as 02h00 quando Joaquim deu entrada no Hospital Garcia da Horta. O diagnóstico não tardou segundos: AVC. Durante três semanas ficou internado nos cuidados intensivos e só uma semana e meia depois foi para a enfermaria. As sequelas do AVC mantêm-se: lado direito paralisado e a fala está comprometida. “Sinto-me muito triste pela saúde do meu marido e zangada pelo tempo que levaram a socorrê-lo”, lamenta a mulher do taxista.
Luís Negrão, médico especialista em Saúde Pública, assessor da Fundação Portuguesa de Cardiologia, considera que uma hora e meia para assistir um doente com AVC “é muito tempo. A demora pôde agravar”. Os minutos que sucedem um AVC são “importantíssimos”.
Armando Santos, não esconde o descontentamento: “Não é justo afirmar que alguém está bêbado sem, ao menos, fazer um teste de álcool.” Já iniciou diligências para “abrir um processo de averiguação”.
Alguns sinais de AVC podem, de facto, ser confundidos com embriaguez. Luís Negrão confirma que existem reacções similares no efeito do álcool e quando uma determinada região cerebral deixa de ser irrigada por sangue provocando a morte das células na zona lesada.
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) (ou Acidente vascular encefálico – AVE), vulgarmente chamado de ‘derrame cerebral’, é uma doença súbita, caracterizada pela falta de irrigação sanguínea em determinada zona do cérebro. Os sintomas instalam-se subitamente e dependem da extensão da área lesada e da sua localização. Nos casos graves, pode provocar coma, paralisação e perda de sensibilidade de um lado do corpo, perda de fala ou morte. Em situações menos graves os sintomas podem ser um desvio da boca, diminuição da força ou da sensibilidade de um membro ou zonas da face e dificuldade na articulação de palavras.
SINAIS CLÍNICOS DE EMBRIAGUEZ
- Hálito etílico saliente
- Fala pastosa
- Dificuldade de coordenação motora
- Desconcerto muscular
- Perturbação mental
- Desordem visual
- Sonolência
- Náuseas e vómitos
FASES DA EMBRIAGUEZ
1- A pessoa torna-se irrequieta, as funções intelectuais mostram-se excitadas, diminuição de atenção e aumento de tempo de reacção.
2- Agitação e agressividade. Discurso arrastado, face ruborizada, hálito alcoólico, marcha desalinhada e coordenação muscular comprometida.
3- Só é atingida com o consumo de grandes doses de bebidas alcoólicas. Sonolência e o coma instala-se progressivamente. Pode ocorrer relaxamento dos esfíncteres, náuseas e vómitos. Anestesia profunda, abolição de reflexos, paralisia e hipotermia. O coma pode ser mortal.
DOENÇAS QUE PODEM SER CONFUNDIDAS COM INTOXICAÇÃO ALCOÓLICA AGUDA
- Doenças neurológicas
- AVC
- Acidentes cardiovasculares
- Intoxicação de drogas
- Coma diabético
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