CABEÇAS-RAPADAS ATACAM OKUPAS
Um grupo de ‘skinheads’, os conhecidos cabeças-rapadas, semeou ontem a confusão numa casa habitada pelo movimento ‘Okupa’, em Queluz. Quinze indivíduos entraram no piso térreo da residência e destruíram tudo o que lhes apareceu pela frente.
A PSP acabou por conseguir deter quatro agressores.
O ‘Zarabatana Social Club’, em Queluz, é um antigo edifício dos CTT que o movimento ‘Okupa’ tomou, há cerca de seis anos, como seu. A casa serve de residência a doze pessoas que, no entanto, não se fixam ali permanentemente.
“Estávamos seis pessoas em casa e fomos todos dormir. Os problemas começaram cerca das 03h30 [de ontem]”, contou ao CM um dos jovens habitantes do ‘Zarabatana Social Club’, que se identificou como Manuel.
Outra das residentes da casa foi a primeira a aperceber-se da presença de dois indivíduos estranhos nas imediações da residência. “Ela foi à janela perguntar o que eles queriam e eles disseram que estavam só a admirar a casa. Pedimos-lhes que se fossem embora”, explicou.
No entanto, em vez de se afastarem, os indivíduos receberam a companhia de mais doze ou treze homens, com as cabeças rapadas, vestidos com calças de ganga, botas, e blusões, e armados com tacos de basebol e cassetetes.
Confessando o seu pânico, os ‘okupas’ decidiram então refugiar-se no primeiro piso da residência, onde se barricaram, evitando que os agressores, que entretanto já tinham arrombado as duas portas de acesso à casa, progredissem ainda mais.
Durante dez minutos, os residentes contam que ouviram apenas o som da destruição. “Eles partiram tudo o que lhes apareceu pela frente. Ao mesmo tempo que partiam tudo só nos chamavam nomes, e diziam que haveriam de voltar para acabar o trabalho”, acrescentou Manuel.
Perante a situação, os ocupantes da residência não hesitaram em chamar a Polícia, que chegou pouco tempo depois de os cabeças-rapadas abandonarem a casa, em duas viaturas. Para trás ficou a destruição de uma sala-convívio, a biblioteca e o bar.
Foi então encetada a perseguição, que veio a culminar com a detenção, ainda em Queluz, de quatro dos agressores, que seguiam num Ford Fiesta preto. Aos indivíduos foram apreendidas duas armas de fogo e tacos de basebol.
OCUPAR É UM DIREITO CONTRA O ABANDONO
“Habitar é um Direito. Abandonar as Casas é um Crime”. Em nome deste princípio, e por defenderem que todos têm direito a uma habitação, milhares de jovens em todo o mundo ocupam casas abandonadas. Mesmo sem a força de movimentos semelhantes em Espanha ou em Inglaterra, os ‘okupas’ portugueses são conhecidos. Um dos últimos casos ocorreu em Lisboa, no mês de Agosto, quando meia centena de jovens se manifestou contra a demolição de um edifício na zona da Praça de Espanha. A ‘Kasa Encantada’ estava ocupada há cerca de cinco anos e meio e encontrava-se em avançado estado de degradação. O edifício acabou por ser demolido, mas situações semelhantes ocorrem um pouco por todo o mundo. “A força deste movimento reside no facto de discutir a lógica do capitalismo”, escreveu recentemente o sociólogo espanhol Miguel Martínez. De tal modo que os ‘okupas’ são presença assídua nas manifestações anti-globalização que caracterizam as reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou do G-8 (Grupo dos sete países mais ricos do Mundo e a Rússia) em cidades como Génova ou Seattle.
IMAGEM DE MARCA: VIOLÊNCIA E RACISMO
Das claques nos estádios de futebol, aos grupos que circulam na noite, o movimento de extrema-direita ‘skinhead’ (cabeças-rapadas) existe e, regra geral, assinala a sua presença de forma violenta. São racistas e admiradores do regime Nazi, não só da ideologia mas também da indumentária e dos símbolos. Quase nunca dão a cara, mas basta ler em algumas paredes e panfletos que por vezes circulam para se perceber o que pensam. As mensagens contra a presença de estrangeiros em Portugal são frequentes, bem como as notícias de agressões. Oriundos em grande parte dos subúrbios das grandes cidades, os ‘skinheads’ caracterizam-se, desde logo, pela ‘cabeça-rapada’. Calças de ganga, blusão e botas de cano alto, modelo inglês com biqueira de aço, são mais três elementos que ajudam a compôr a imagem. Os movimentos de extrema-direita existem por toda a Europa, em especial na Alemanha, onde, desde 1989, já foram proibidas mais de vinte organizações neonazis.
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