Câmara retira bens a despejados

A Câmara de Odivelas retirou da via pública os bens da família com três menores que desde terça-feira vive ao relento, após terem sido despejados. Pelas 15h00, funcionários da autarquia deslocaram-se à Rua Rainha Santa Isabel, em Famões, e informaram Joaquim Potes e companheira, Francelina, que iam ter os bens confiscados.

10 de dezembro de 2005 às 00:00
Câmara retira bens a despejados Foto: Jorge Godinho
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Joaquim Potes viveu 28 anos no 3.º dt.º do n.º 3, de onde foi despejado da casa da Câmara por incumprimento de renda – uma dívida de 30 euros, segundo dita a sentença, e não os 53 referidos pela autarquia.

A ordem incluía a rulote onde pernoitam. Mas o veículo escapou à limpeza – quando os funcionários se preparavam para içar a rulote com o reboque, Maria José Potes, irmã de Joaquim, tentou fechar-se na viatura. “A rulote é minha e ninguém me tira daqui”, gritava, quando caiu inconsciente. Como a jovem sofre do coração, temeu-se o pior.

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Um agente da PSP entrou na rulote, ajoelhou-se e, visivelmente assustado, pediu que trouxessem água. Em lágrimas, a cunhada Francelina disse que a jovem apenas desmaiara. Autoridades e família chegaram então a um ‘compromisso’ – a rulote era poupada desde que a levassem para um terreno privado.

CARRINHA PARTE CHEIA

Francelina retirou de uma cómoda lençóis e cobertores, que guardou na rulote. Viu que a cortina da banheira estava desarrumada. Dobrou-a e colocou-a na carrinha da Câmara, que partiu até um armazém.

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Sobrou um frigorífico. Na rua não podia ficar. Os vizinhos sugeriram então as escadas de um prédio. Ao arrastarem-no, a porta abriu-se. O leite entornou-se, os alimentos caíram. O grupo parou, guardou o que tinha tombado e colocou o frigorífico nas escadas. “Ponham também o fogareiro”, disse a mãe de três: Filipe, 17 anos, Andreia, 13, e Inês, a mais nova. Comemora hoje o seu oitavo aniversário.

'DEITARAM-NOS PARA A VALETA'

A dor e a revolta tomou conta dos moradores da Rua Rainha Santa Isabel, na Quinta das Pretas, em Famões (Odivelas). “Não se faz, colocar uma pessoa na rua por uma dívida de 30 euros e recusar depois aceitar o dinheiro”, desabafou uma das vizinhas. “Não é de um ser humano, é de uma pessoa que não tem dignidade.” Ana Maria Carvalhais mora ao lado de Joaquim Potes há 28 anos. “É quase como se fosse meu filho, vi-o crescer aqui, pois viemos todos desalojados das Patameiras tinha ele quatro anos.” Ao seu lado, o casal José Simões e Manuela Simões, vizinhos do 2.º andar, compreendem a dor do jovem que, há um ano, partilhava a casa com a companheira, Francelina Passarinho, e os três filhos menores dela. José Simões não sustém as lágrimas ao falar. “Isto é deitar uma família para a valeta. Não pagaram. E coloca-se uma família na rua por 30 euros. Onde é que está uma segunda oportunidade?”

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DIA 24.09.05

Sentença determina que motivo de despejo é uma dívida de 30 euros. Acção junto do tribunal foi entregue em Setembro de 2003 devido ao não pagamento da renda mensal de dois euros desde Setembro de 2002.

DIA 14.10.05

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Primeira ordem de despejo não se concretiza.

DIA 17.10.05

Família afirma que tentou junto da Câmara pagar dívida, mas que esta recusou.

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DIA 11.11.05

Câmara contacta Joaquim Potes. Este informa que não tem meios para alugar uma casa.

DIA 06.12.05

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Acção de despejo concretiza-se. Os bens ficam na rua e a família vive na rulote emprestada pela irmã de Joaquim.

DIA 09.12.05

A câmara remove todos os bens da família para um armazém, ordenando que a rulote seja retirada da via pública.

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DIA 10.12.05

Inês Sofia celebra oito anos. O dia é passado em família, numa rulote sem água e sem luz.

D. Manuel Martins Bispo Emérito de Setúbal: “Políticos não são sensíveis”

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Correio da Manhã – Na década de 80 denunciou a fome em Setúbal. Hoje, entende que a situação no País melhorou?

D. Manuel Martins – Na generalidade as coisas não melhoraram. Há manchas de pobreza no País 30 anos depois de estarmos em democracia e de nos terem feito sucessivas promessas. Um caso de miséria gritante é a habitação – como é possível morar tanta gente em barracas desgraçadas onde é possível estar, mas onde não se pode viver? É fácil andar a jogar com os números, mas o certo é que o desemprego significa grande sofrimento – a casa que não se pode pagar, os filhos que não se podem educar, os sonhos que não se podem ter.

– O que pode a Igreja fazer?

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– A Igreja tem tudo a ver com isto. A Igreja é Mãe. A Igreja tem de olhar, olhos nos olhos, e alertar os responsáveis para estas situações.

– Como classifica a sensibilidade dos políticos para as questões da pobreza?

– Há uma grande faixa de irresponsabilidade. O Poder não está atento a estas situações. Os políticos olham para as Ota e para os TGV e não olham para o que está no chão. Ou até mesmo para aquilo que está debaixo do chão, que é a miséria escondida. Não há maneira de os homens do poder se tornarem sensíveis para as coisas que tocam os cidadãos. Resolvidos estes problemas, podemos então voar.

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