Chega aceita explicações do PR quanto a declarações sobre abusos mas diz que devia falar ao país
Na terça-feira, o Presidente da República afirmou não estar surpreendido sobre a recolha de 424 testemunhos de abusos sexuais de menores na igreja.
O presidente do Chega aceitou esta quarta-feira como "boas e verídicas" as explicações que lhe foram dadas pelo Presidente da República quanto às suas declarações sobre abusos sexuais de menores por elementos da Igreja Católica, mas defendeu que deveria falar ao país.
Em declarações aos jornalistas, no final de uma audiência com o Presidente da República sobre o Orçamento do Estado para 2023, André Ventura confirmou que também quis tratar na reunião este tema, um dia depois de declarações de Marcelo Rebelo de Sousa causaram polémica e críticas partidárias de que estaria a desvalorizar as vítimas.
"As declarações como foram feitas foram graves e desajustadas e merecem a censura do Chega (...) O Presidente da República hoje explicou-nos o contexto em que foram proferidas e o sentido profundo que queria transmitir", disse.
Segundo Ventura, o chefe de Estado estaria a aludir a possíveis "cifras negras" dos abusos sexuais em Portugal, dado o papel institucional que a Igreja tem desempenhado no país quer em democracia, quer antes em ditadura.
"Neste sentido, o Chega registou as palavras do Presidente da República como boas e verídicas. Acreditamos que tenha sido este o sentido que quis dar e que o Presidente da República quer combater os abusos sexuais tanto como o Chega", disse.
Ainda assim, defendeu, Marcelo Rebelo de Sousa deveria falar ao país para uma maior clarificação.
"Eu, se fosse Presidente da República, quando acabassem as audiências vinha aqui e falava convosco e explicava ao país", disse, apelando a que Marcelo Rebelo de Sousa não volte e "ziguezaguear" sobre este tema.
André Ventura defendeu que "nenhum partido tem lutado tanto contra os abusos sexuais de menores como o Chega", referindo-se a iniciativas legislativas no âmbito da castração química e de agravamento de penas.
Questionado se figuras como Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, e o bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), têm condições para se manter nos cargos, o líder do Chega distinguiu entre o primeiro, "que tem um cargo institucional e com regras próprias", e o segundo, "o rosto da igreja executiva em Portugal" e que estará a ser alvo de duas investigações por parte do Ministério Público.
"Se se confirmar que houve atos de encobrimento - e quero colocar o 'se' muito firmemente, não conheço os dados de investigação - será bom um afastamento, nem que seja provisório das funções na CEP", defendeu.
Na terça-feira, questionado sobre a recolha de 424 testemunhos de abusos sexuais contra crianças na Igreja Católica em Portugal, o Presidente da República afirmou não estar surpreendido, salientou que "não há limite de tempo para estas queixas" que têm estado a ser recolhidas, algumas relativas "há 60 ou há 70 ou há 80 anos".
"Significa que estamos perante um universo de pessoas que se relacionou com a Igreja Católica de milhões ou muitas centenas de milhares", prosseguiu Marcelo Rebelo de Sousa, concluindo: "Haver 400 casos não me parece que seja particularmente elevado, porque noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos".
Face às críticas que estas declarações suscitaram, o chefe de Estado divulgou uma nota na qual afirma que "este número não parece particularmente elevado face à provável triste realidade, quer em Portugal, quer pelo mundo", admitindo que "terá havido também números muito superiores em Portugal".
Depois, o Presidente da República falou para a RTP e para a SIC a reforçar a mesma mensagem, reiterando que 424 queixas lhe parece um número "curto", declarando que aceita democraticamente as críticas que recebeu, mas não as compreende.
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