DESCOBRI O INFERNO

O relógio marcava as 05h00 do dia 23 de Agosto de 2001. O jovem Tiago Sérgio voltava para casa, quando o táxi em que seguia colidiu, na 2.ª Circular, em Lisboa, com a traseira de um camião. O acidente provocou a morte imediata de motorista e passageiro.

17 de novembro de 2003 às 00:00
DESCOBRI O INFERNO Foto: Pedro Catarino
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"Desde esse dia que nunca mais tive tranquilidade. Posso dizer que descobri o inferno", desabafou ao CM o pai de Tiago em cerimónia realizada ontem em memória das vítimas nas estradas.

Mais de dois anos depois da morte do filho, Vítor Bastos ainda não tem força para conseguir conter as lágrimas. "Ele só tinha 22 anos e era militar nos Rangers de Lamego", recordou, no meio de um choro quase compulsivo.

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No fatídico dia, Tiago Sérgio apanhou um táxi, em direcção a casa. À entrada da 2.ª Circular, no sentido Aeroporto-Benfica, a velocidade do veículo começou a aumentar, até chegar aos 180 km/h. A presença súbita de um camião de carga tirou qualquer sucesso de travagem. "A força do impacto foi tanta que o táxi recuou cerca de dez metros", explicou Vítor Bastos.

O motorista teve morte imediata, enquanto Tiago Sérgio ainda lutou pela vida, durante cerca de 15 minutos. A morte acabou por vencê-lo. Depois do funeral, o pai teve direito a uma indemnização, paga pela companhia de seguros. Mas tal nunca foi suficiente. "Ele morreu e ainda por cima pagaram-me o dinheiro, dizendo que a negligência tinha sido dele por não trazer cinto de segurança", lamentou.

ALERTAR CONSCIÊNCIAS

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Como resposta à dor que acumulou durante anos, Vítor Bastos encontrou a Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M). "Entrei na associação não só por causa do meu filho, mas também a pensar noutras pessoas que, tal como eu, perderam familiares", referiu.

E foi precisamente com as vítimas dos acidentes em mente que a ACA-M se associou ontem ao Dia Europeu em Memória das Vítimas da Sinistralidade Rodoviária. E a ideia que sempre caracterizou a associação, de comparar a situação nas estradas portuguesas a uma guerra civil, voltou a ser ouvida ontem, em Lisboa.

Na ausência de um memorial, construído em solo nacional, em memória destas vítimas, a ACA-M optou por depor uma coroa de flores no Monumento aos Combatentes da Grande Guerra, na Avenida da Liberdade. "Estamos aqui para alertar consciências, e pedir mais policiamento real nas estradas", referiu Rui Zink, dirigente desta associação.

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DENÚNCIAS DE PERIGOS

A Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M) já recebeu mais de 1500 denúncias de pessoas de situações de perigo nas estradas e pretende, até final do ano, divulgá-las no seu ‘site’ (www.aca-m.org) e entregá-las a diversas entidades públicas. Recorde-se que, como o CM noticiou ontem, estão identificados 23 pontos negros em Portugal, todos acima de Setúbal.

1169 MORTES ATÉ AO DIA 9

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De 1 de Janeiro a 9 de Novembro morreram 1169 pessoas nas estradas portuguesas, de acordo com dados da Direcção-Geral de Viação, que juntam os da GNR e os da PSP. No mesmo período de 2002, houve 1267 mortes. Este ano, há ainda a registar, até 9 de Novembro, 4034 feridos graves e 44.017 ligeiros, o que perfaz 49.220 vítimas, contra 49.935 verificados em 2002.

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