Ex-assessor de Sócrates e testemunha na 'Operação Marquês' diz que só grupo Lena quis construir casas na Venezuela

Vítor Escária foi inquirido como testemunha no julgamento do processo.

14 de janeiro de 2026 às 13:49
Vítor Escária Foto: Raquel Wise / sÁBADO
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O ex-assessor económico do antigo primeiro-ministro José Sócrates (2005-2011) Vítor Escária afirmou esta quarta-feira, em tribunal, que a Lena foi a única empresa portuguesa que manifestou interesse, em 2009, em construir casas sociais na Venezuela.

Inquirido como testemunha no julgamento do processo Operação Marquês, em Lisboa, Vítor Escária disse ter memória que o interesse em que Portugal construísse milhares de casas sociais na Venezuela partiu do Estado sul-americano, tendo sido consultadas pelo Governo português quatro empresas que integravam à data "comissões mistas" com membros dos dois países.

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O grupo era composto pela Mota-Engil, a Teixeira Duarte, a Edifer e a Lena e só esta última "terá respondido afirmativamente" ao repto, uma vez que as outras três prefeririam executar outros projetos.

Na acusação, o Ministério Público defende que o grupo Lena terá pago quase 2,4 milhões de euros a José Sócrates para obter apoio privilegiado no concurso para a construção de habitação social na Venezuela, o que foi negado no início do julgamento pelo ex-governante.

O antigo chefe de Governo é ainda suspeito de ter sido recompensado financeiramente para, depois de ter deixado o Governo, fazer 'lobbying' a favor do grupo Lena num outro projeto de construção de casas sociais, na Argélia.

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Esta quarta-feira, o à data embaixador de Portugal no país magrebino, António Gamito, reconheceu que, em 2014, recebeu um telefonema de José Sócrates para agilizar uma reunião entre um ministro argelino, um dos administradores do grupo Lena, Joaquim Barroca, e um dos alegados testas-de-ferro do antigo primeiro-ministro português, Carlos Santos Silva, mas desvalorizou o pedido. "O pedido que faz é um pedido que eu considero absolutamente normal", defendeu, sublinhando que havia ex-membros de outros governos e "muitos empresários" que o contactavam no mesmo sentido.

O diplomata acrescentou, enquanto testemunha, que arranjou "de facto o encontro", no qual esteve presente, como era habitual em reuniões agilizadas diplomaticamente. José Sócrates, de 68 anos, está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.

No total, o processo conta com 21 arguidos que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que globalmente lhes são imputados. Os ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014 e no primeiro semestre deste ano podem prescrever, segundo o tribunal, os crimes de corrupção mais antigos, relacionados com Vale do Lobo. O julgamento decorre desde 03 de julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de Lisboa. 

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