“Fica comigo filho, não vás embora”

Debruçado sobre o caixão do filho, Eurico Gonçalves era ontem à tarde um pai inconsolável, completamente destroçado. Em lágrimas, beijou a urna que transportava o pequeno Martim, de 12 anos, e gritou desesperado pelo nome do menino no momento em que o corpo desceu à terra no cemitério de Vinhais, distrito de Bragança. A criança, que sofria de autismo, morreu no sábado depois de ter sido atirada do quarto andar de um hotel pela mãe, que se suicidou logo de seguida.

12 de fevereiro de 2013 às 01:00
BRAGANÇA, FUNERAL, MÃE, FILHO, MANUELA PAÇÓ, MARTIM Foto: Rafaela Cadilhe
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O corpo de Manuela Paçó, professora de 47 anos, foi também ontem enterrado junto ao do filho. Deprimida, terá cometido o ato de desespero com medo de que o menino ficasse sozinho no futuro. "Não vás embora, meu amor, meu filho fica comigo por favor", dizia em lágrimas Eurico Gonçalves – presidente da Assembleia Municipal de Vinhais e subdiretor do Agrupamento de Escolas da vila – apoiado pela família e amigos.

A cerimónia, que começou às 16h30, contou com centenas de pessoas que fizeram questão de dizer o último adeus a Manuela e ao filho, cujos corpos chegaram minutos antes do início do funeral. Todos se questionavam sobre as razões que terão levado a mulher – que deixou uma carta a pedir desculpa ao marido – a cometer tamanha loucura. E todos lamentavam não ter podido fazer nada e salvar mãe e filho da morte.

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"Nesta altura parece estranho falar de esperança. A verdade é que todos nós lutamos para manter a nossa alegria de viver. Mas somos homens e mulheres e, infelizmente, muitas vezes acontecem tragédias", disse o pároco. No final da curta missa, a família pediu às centenas de pessoas presentes que saíssem da igreja. Fecharam as portas e no interior despediram-se pela última vez de Martim e Manuela.

Do exterior da capela ouviam-se gritos de desespero lá dentro. "Adeus, meu menino. Olha pela tua família", dizia um familiar da criança.

Minutos depois, Eurico e a família saíram da igreja, lavados em lágrimas, e dirigiram-se para o cemitério onde, pelas 17h30, o corpo de mãe e filho desceram à terra.

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FLORES BRANCAS E BALÕES NO ÚLTIMO ADEUS A MARTIM

As centenas de pessoas que estiveram ontem no funeral fizeram questão de levar flores brancas e vários balões para dizer o último adeus ao pequeno Martim. Alguns membros da Associação Leque, que se destina a crianças com necessidades especiais e onde Manuela fazia parte da direção, estiveram também presentes no funeral. No final, a família evitou receber as condolências, explicando aos presentes que a dor era demasiado forte.

Após o final da cerimónia, Eurico Gonçalves regressou a casa de familiares, onde tem permanecido a receber apoio desde o dia da tragédia. Não mais voltou à moradia onde vivia com a mulher e com o filho de 12 anos. Não consegue encontrar uma explicação para a tragédia.

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